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Marconi Perillo: “Não me preocupa discurso vazio”

A uma semana de se desincompatibilizar do cargo de governador, faltando ainda nove meses para concluir o seu quarto mandato, Marconi Perillo (PSDB) está em compasso de desaceleração, em que pese o ritmo acelerado de inauguração de obras Goiás a fora durante a semana que vem.

Sereno e reflexivo, ele recebeu a reportagem do jornal O Hoje, na sala principal do Palácio Conde dos Arcos, na cidade de Goiás, antiga sede do governo do estado. Estava na antiga capital por conta da Procissão do Fogaréu, ato religioso que faz questão de participar desde a sua primeira administração (1999/2002). “Quando FHC estava despedindo da Presidência disse que já sentia saudades. Vou sentir saudade disso aqui (Palácio conde dos Arcos)”, disse ao final da entre vista, se dirigindo à janela e cumprimentando populares.

De início, fez um resumo do legado de seus governos, falou dos avanços em todas as áreas, sobretudo em saúde, educação e infraestrutura. Mas também destacou o equilíbrio das contas do estado, com o forte crescimento da economia. 

Qual o sentimento de vir à Cidade de Goiás nesse dia importante para a cidade e também pela última vez como governador nesse mandato? 

Última vez como governador na procissão do fogaréu. Porque vou voltar aqui para inaugurar mais obras. Mas o grande sentimento dessa minha visita hoje é presenciar a consolidação da cidade de Goiás como patrimônio mundial. Quando nós trabalhamos, ajudamos na elaboração do dossiê da candidatura de Goiás ao título de patrimônio da humanidade da UNESCO, que conquistamos esse título, havia uma preocupação se nós conseguiríamos mantê-lo. E hoje, durante a cerimônia que participei agora a pouco, ouvi da presidente nacional do IPHAN que Goiás é dentre as 12 cidades que têm o título de patrimônio da humanidade no Brasil a que melhor preservou o patrimônio. E é a primeira cidade no Brasil também a cumprir todas as obras do parque da cidade histórico.

Quando o senhor deixar o cargo semana que vem vão se completar 14 anos e 6 meses no comando do governo de Goiás. Como o senhor avalia essa sua passagem e que legado o senhor deixa para o estado? 

Foram tempos de muitas adversidades, de muitos desafios, de muitos sonhos, esperançam, mas de muitas realizações. Nesse período todo, o legado que a gente deixa está nos indicadores e nos números. Todos os números sociais melhoraram e avançaram significativamente e todos os indicadores econômicos também. Do ponto de vista Social, Goiás saltou do 16º lugar no IDEB, na educação básica, para o primeiro lugar. Na Segurança Pública, nós multiplicamos por 700% em média os salários dos policiais, demos equipamentos, condições de trabalho e valorizamos. Na Saúde nós conseguimos humanizar e transformar em excelência todos os hospitais que existiam ou os que nós construímos no estado ao longo dos nossos governos. Nós construímos mais hospitais estaduais do que a soma dos outros governadores, e hospitais de grande porte, como o Hugol, o CRER, os Hospitais de Urgências de Anápolis, de Aparecida, de Trindade, o Hospital do Servidor Público, reabrimos e transformamos a capacidade do HGG, ao mesmo tempo nós dobramos o número de leitos no Hugo e HDT. Então na saúde isso significou milhões de atendimentos. Só o CRER já atendeu até agora 15 milhões de pacientes nos 15 anos de funcionamento. Nós deixamos na área Social os programas mais ousados do País em termo de transferência de renda. Foi de Goiás que surgiu o cartão renda cidadã, cartão do cheque-reforma e a bolsa universitária. E também há o legado econômico, que é impossível de não ser avaliado positivamente. Nós tivemos quase 1 milhão a mais de empregos, segundo o Caged, com carteira assinada durante o nosso período de governo. O PIB de Goiás saltou de menos de 20 bilhões para 200 bilhões agora. E as exportações também tiveram uma multiplicação, nós saltamos de aproximadamente 300 milhões de dólares para 7 bilhões de dólares.

Especificamente sobre as contas públicas. Como é que são entregues as contas para o seu sucessor? A busca pelo equilíbrio fiscal ainda é um desafio? 

Nós tínhamos em 1998 uma relação de dívida e receita na ordem de 3,6 receitas anuais correntes para se pagar a dívida externa. Nós baixamos para 0,9, ou seja, menos de um ano. Então a trajetória é extremamente positiva para Goiás, apesar de termos contraído empréstimos novos agora a partir de 2012, 2013. Nos meus dois primeiros governos nós tomamos mais de 100 milhões de dólares de empréstimo e pagamos 10 bilhões de empréstimos contraídos em outros governos. Agora tomamos aproximadamente R$ 8 bilhões de empréstimo, mas ao longo dos meus governos nós pagamos R$ 40 bilhões de juros e serviços da dívida externa do estado. Pelo menos agora, nesses dois últimos governos, conseguimos recursos para fazer investimento, porque antes a gente só pagava dívida. Mas a trajetória é muito favorável e ainda temos limite hoje, por exemplo, autorizado no PAF (Programa de Ajuste Fiscal) um novo empréstimo de R$ 670 milhões. Se nós não tivéssemos essa condição, não teríamos autorização no PAF. Do ponto de vista fiscal e financeiro, estamos cumprindo a lei de responsabilidade fiscal. É fácil adversário político sem compromisso e competência falar em rombo. O difícil é você estar no comando da gestão do estado e continuar durante tantos anos com as contas rigorosamente em dia. Pagamento do custeio à Saúde, pagamento do custeio à Educação, da Segurança Pública, folha de pagamento em dia, décimo terceiro em dia. Não adianta esse discurso de dizer que a situação é ruim. Não adianta torcer contra.

A oposição na Assembleia ou de pré-candidatos ao governo critica a situação do Estado. Acham que o Goiás da propaganda não é o Goiás real. 

Mas no Goiás da propaganda nós estamos mostrando apenas o que estamos fazendo. Aliás, estamos propagandeando muito menos, porque temos limitações esse ano para gastos com propaganda. Agora o Goiás real é folha de pagamento em dia, décimo terceiro pago no mês de aniversário, aumentos e reconhecimentos salariais à importância do servidor, plano de carreira, obras em todos os cantos de Goiás, Goiás na Frente pagando os convênios dos prefeitos. Tem investimentos em todos os cantos, investimos mais de 200 milhões em pesquisa, através da Fapeg. Nós temos hoje os nossos institutos tecnológicos, colégios tecnológicos, colégios militares, as OSs funcionando e recebendo. Não me preocupa discurso vazio.Eu imagino o que seria de Goiás se esses coronéis do passado estivessem no governo. Não adianta só discurso, é preciso ter competência, visão, relacionamento, diálogo e diplomacia para conversar com as instituições em Brasília, com as instituições internacionais e tem uma relação harmoniosa com todas as instituições no Estado. A realidade está nos números. É isso que precisa ser visto, mais do que o debate, o bate-boca político, o discurso fraco e vazio de alguns que insistem nessas teses, é observar os números, os indicadores. Ninguém vai fabricar números. Os números são nacionais. Nós acabamos de receber o título de segundo lugar em transparência nas contas de governo, segundo o Ministério Público Federal.

“Zé Eliton prefere disputar a eleição contra o Caiado” 

Ao falar sobre a sucessão estadual, o governador Marconi Perillo diz que aposta no favoritismo do vice-governador José Eliton, que assume a partir do dia 7 de abril. “Ele é preparado, culto, bem-intencionado e trabalhador”, destaca. Ao rebater críticas da oposição, Marconi defende uma campanha de alto nível e diz que Goiás não pode ser um estado onde o coronelismo e a vontade de um prevaleça sobre os demais. Para Marconi, José Eliton prefere disputar um segundo turno com Ronaldo Caiado (DEM), por entender que o vice-governador conhece o senador muito bem. Marconi vê uma divisão profunda na oposição no Estado, mas diz reconhece a força do MDB. “Enfrentei essa força durante cinco campanhas, portanto continuo achando que o MDB tem uma base e um eleitorado muito fortes”, afirma. 

O senhor disse nessa semana que pelo legado e pelo que será defendido por Zé Eliton, ele é favorito. O senhor acha mesmo que ele é favorito? 

Ele é preparado, ele é culto, ele é bem-intencionado, trabalhador, como eu sou trabalhador. Governo do Estado não é para preguiçoso nem é para quem faz discurso e nunca fez nada. É para quem trabalha, quem tem ideia, quem tem cabeça, quem aglutina, quem junta, quem dialoga, quem tem resistência física e amor pelo estado. Goiás não pode ser um estado para intolerantes, não pode ser um estado de injustiças, não pode ser um estado onde o coronelismo e a vontade de um prevaleça sobre a vontade dos outros. E estou convencido que o Zé Eliton tem essas características e é por isso que acho que ele é favorito. Nós temos uma base partidária muito forte, deputados federais, temos candidatos fortes ao Senado, temos uma base muito forte na Assembleia e tem uma base municipal muito forte, que está satisfeita com o governo que está trabalhando republicanamente em todos os municípios.

O senhor deixa o governo agora em abril em uma situação semelhante ao que foi em 2006, em que o vice assume o governo. Quais as semelhanças e diferenças políticas e administrativas de 2006 para 2018?

Eu tive uma relação boa durante o tempo em que fui governador com o meu antecessor (Alcides Rodrigues), mas conversava muito pouco com ele. Sempre fui muito de trabalho e ele cuidava da vida dele e eu cuidava da minha. Mas confesso que um dos meus erros foi ter conversado pouco com ele e não tê-lo conhecido melhor na intimidade. Com Zé Eliton tem acontecido exatamente o contrário. Ao longo desses quase oito anos de convivência, ele nunca tomou uma decisão sem conversar antes comigo. Eu o convidei para compartilhar comigo todos os principais desafios, todas as principais dificuldades e todas as principais medidas em tempos de crise. Ele ocupou cargos importantíssimos, como a presidência da Celg, na Segurança Pública, na economia, coordena o Goiás na Frente. Mas o mais importante é que tudo foi construído com muito diálogo, toda a transição está sendo feita com diálogo, ele conversa comigo, pede a minha opinião sobre quem deve ficar e para onde ir um quadro ou outro. Isso é radicalmente diferente do que aconteceu em 2006.

Esses nove meses que faltam para concluir o mandato com o vice na frente, o senhor acha que será uma gestão de continuidade ou é possível Zé Eliton imprimir uma marca em tão pouco tempo?

Em todas as nossas conversas, em todas as nossas reuniões com as nossas equipes e sociedade civil, tenho deixado muito claro que ele vai manter o legado e dar continuidade ao que temos feito. E, claro, aos poucos, ele também vai imprimindo a marca dele, que é uma marca desse projeto, desse modelo de desenvolvimento social que deu certo em Goiás. Goiás deixou de ser um estado da periferia brasileira para ser um estado central, um estado protagonista no Brasil, respeitado no Brasil e no mundo, eficiente, um estado criador de bons projetos, um estado criativo, um estado que soube apresentar ao Brasil políticas públicas que não existiam e que nasceram aqui. Quantas pessoas, líderes, autoridades vieram para buscar aqui inspiração, na criatividade goiana experiências para levarem para os seus estados? São muitos os programas que inspiraram a União e outros estados. Temos um modelo que é reconhecido no Brasil e mundo afora.

Conversando com o diretor do Instituto Serpes, na semana passada, ele falava da possibilidade de rompimento da polarização entre PSDB e MDB, com a chamada terceira via. O senhor acredita nessa possibilidade, de que um terceiro nome quebre a polarização agora? E ele dá nome aos bois, no sentido de uma disputa entre Zé Eliton e Ronaldo Caiado.

O Zé Eliton prefere disputar a eleição contra o Caiado. Porque ele conhece bem o Caiado, ele foi indicado para ser vice-governador em 2010 pelo DEM e pelo Caiado. Ele conhece muito bem as limitações e as características do Ronaldo Caiado. Ele prefere, mas de qualquer maneira, o que nós vemos é que há uma divisão profunda na oposição. Uma divisão que já chegou aos nervos, que já chegou à questão pessoal. Então não tenho dúvidas de que a máquina partidária do MDB continua sendo muito forte em Goiás. Eu não desmereço, nem desconheço a força do MDB no Estado. Eu enfrentei essa força durante cinco campanhas, portanto continuo achando que o MDB tem uma base e um eleitorado fortes e continua sendo um player forte nas eleições. Por outro lado, o candidato do DEM tem uma história de muitas disputas. É o nome mais conhecido, conhecido por 100% dos goianos, enquanto o candidato nosso – o Zé Eliton -, e o candidato do MDB são conhecidos por menos de 20% do eleitorado. Acho que haverá tempo para que haja essa massificação, haja maior conhecimento entre todos os candidatos e haja o cotejamento, a comparação.

Uma notícia recente dessa semana é a elegibilidade do ex-senador Demóstenes Torres. Ele já disse que quer disputar uma vaga ao Senado na base aliada. O PTB chegou a considerar outras conformações e ele disse que o conveniente para ele é ficar na base. O senhor acha que há espaço? Como o senhor avalia essa volta do Demóstenes?

O senador Demóstenes foi eleito comigo em duas eleições. Ele e a senadora Lúcia Vânia, tanto em 2002 quanto em 2010. Nós estávamos juntos nas eleições. Estive rompido com ele durante muito tempo e restabelecemos a nossa aliança no Senado da República, quando fomos colegas. É um direito dele ser candidato, à medida que o Supremo Tribunal Federal confirme essa decisão liminar que foi dada. De qualquer maneira, daqui para a frente nós vamos discutir até as convenções, que serão em agosto, qual será a melhor aliança, como nós vamos acomodar forças importantes como as que temos em nossa aliança, a senadora Lúcia Vânia, que tem todo o direito de postular sua reeleição pela base, o ex-senador Demóstenes, o próprio senador Wilder. Claro que vamos acomodar quem for possível e quem não for, terá direito a se candidatar em outras agremiações.

Surgiram especulações de que o ex-governador Maguito teria uma relação próxima com o senhor e estaria ligando para companheiros no MDB afirmando que em um eventual segundo turno teria o apoio do senhor ou vice-versa.

Esse assunto nunca foi tratado por nenhum de nós. O que se sabe é que nos últimos 20 anos Maguito e Iris estiveram em um campo da oposição a nós do governo. Nós nos enfrentamos o tempo todo, e o que todo mundo sabe é que o Caiado esteve na nossa aliança, em 1998 e em 2002, e não esteve na nossa campanha em 2006, porque ele apoiou o Demóstenes para governador, mas logo em seguida aderiu ao governo do Alcides e indicou o vice-governador (Zé Eliton) em 2010. Se tem duas pessoas que são coerentes nesse aspecto é o ex-governador e prefeito Maguito e o ex-governador e prefeito Iris Rezende. O discurso do Maguito está correto, porque quem ficou na oposição nesse tempo todo, a bem da verdade, foram eles. Agora é diferente a relação institucional.

É possível que a base lance outras chapas ao Senado?

Não avaliei isso ainda, porque me dediquei nesses anos todos a trabalhar muito. Eu sou sincero, o tempo que estou tendo em Goiânia é para cuidar dos assuntos do governo, reunir com a minha equipe, cobrar ações, e o resto estou atuando no sentido de ir aos quatro cantos do estado. Então, ainda não parei para falar de política.

A impressão que se tem é que o senhor está sendo muito esperado, até requisitado para articulação nacional em torno da candidatura do Geraldo Alckmin.

Eu me encontrei com o Geraldo Alckmin esse ano duas vezes apenas. Falei com ele ontem (terça-feira), por telefone, mas não tive tempo de conversar com ele sobre nenhum assunto da política nacional. Com certeza farei isso a partir de abril. Eu vou descansar uma semana, logo depois vou voltar pra Brasília para ajudar na articulação do partido e estarei também em Goiânia, colaborando naquilo que me for solicitado pelo governador Zé Eliton. 

por Rubens Salomão e Venceslau Pimentel – Jornal O HOJE

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