‘Me senti um prisioneiro’, afirma Lula sobre condução coercitiva

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse na tarde desta sexta-feira (4) que se sentiu “prisioneiro” por ter sido levado coercitivamente para prestar depoimento à Polícia Federal. Ele depôs no Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo e, em seguida, foi à sede nacional do PT, no Centro da capital paulista, onde fez um pronunciamento

https://www.youtube.com/watch?v=rxgJtw5LXNw

O presidente afirmou ainda que “acertaram o rabo da jararaca”, mas “não mataram”. E também falou sobre a presidente Dilma Rousseff: “Não permitem que a Dilma governe esse país”.

Lula é alvo da 24ª fase da Operação Lava Jato, que foi deflagrada nesta sexta. Além do depoimento, foi realizada busca a apreensão em sua casa, na sede do Instituto Lula e outros locais ligados ao petista. Investigadores suspeitam que o ex-presidente tenha recebido vantagens indevidas de empreiteiras suspeitas de desvios na Petrobras.

Depoimento na PF
“Me senti prisioneiro hoje de manhã”, afirmou diante de militantes. “Já passei por muita coisa na minha vida. Não sou homem de guardar mágoa, mas nosso país não pode continuar assim. Nosso país não pode continuar amedrontado.”

Ele disse que “jamais se recusaria a prestar depoimento. Não precisaria ter mandado uma coerção”. “Era só ter convidado. Antes deles, nós já éramos democratas.” “Se o juiz [Sérgio] Moro e o Ministério Público quisessem me ouvir, era só ter me mandado um ofício e eu ia como sempre fui porque não devo e não temo”, declarou.

Lula faz pronunciamento na sede do PT em São Paulo (Foto: Paula Paiva Paulo/G1)

Lula faz pronunciamento na sede do PT em São Paulo (Foto: Paula Paiva Paulo/G1)

‘Cabeça erguida’
O ex-presidente voltou a dizer que é inocente e que está de “cabeça erguida”. “Fiquei indignado com esse processo de suspeição. Se a PF encontrar um real de desvio na minha conduta, eu não mereço ser desse partido”.

Ele afirmou que “não vai baixar a cabeça” e que, a partir da semana que vem, está disposto a discursar pelo país. “O que fizeram com esse ato hoje foi fazer com que, a partir da semana que vem, me convidem, que eu estarei disposto a andar esse país.”

Lula disse que “nem tudo está perdido” e ele e o partido vão “recomeçar”. “O que aconteceu hoje é o que precisava acontecer para o PT levantar a cabeça. […] O que aconteceu hoje, embora tenha me ofendido, me magoado… Eu me senti ultrajado. Se quiseram matar a jararaca, não mataram a jararaca, pois bateram no rabo, não na cabeça. Quero dizer que a jararaca tá viva.”

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala durante coletiva de imprensa na sede do Partido dos Trabalhadores (PT) em São Paulo (Foto: André Penner/AP)
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala durante coletiva de imprensa na sede do Partido dos Trabalhadores (PT) em São Paulo (Foto: André Penner/AP)

Críticas à Justiça
Ele criticou parte da Justiça e disse que, por “prepotência e arrogância”, fizeram um show de “pirotecnia” com a deflagração da operação da Lava Jato (veja o vídeo abaixo).

“Enquanto os advogados não sabiam nada, alguns meios de comunicação já sabiam. É lamentável que uma parcela do Poder Judiciário brasileiro esteja trabalhando em associação com a imprensa.” E acrescentou: “Antigamente, você tinha a denúncia de um crime, ia investigar se existia e prender o criminoso. Hoje a primeira coisa que se faz é determinar quem é o criminoso”.

O ex-presidente Lula disse que a democracia precisa de “instituições fortes”. “É importante que os procuradores saibam que uma instituição forte tem que ter profissionais responsáveis.”

Perdão à família
Lula pediu perdão aos parentes. “Queria pedir desculpas a Marisa e meus filhos pelos transtornos que eles passaram“, disse. “Não há nenhuma explicação de irem atrás dos meus filhos a não ser de eles serem meus filhos.”

Crise política
O ex-presidente também comentou a crise política (veja o vídeo abaixo). “Eu deixei a Presidência e achei que tinha cumprido com a minha tarefa. Ao eleger a Dilma, achei que tinha consagrado minha vida.”

“Eu tinha duas teses: o presidente bom é aquele que se reelege. Um ‘bibom’ é aquele que faz sucessor. Então, me considerava ‘bibom’, e fiquei ‘tribom’ quando reelegi a Dilma. E eles estão, desde 26 de outubro de 2014, não permitindo que a Dilma governe esse país.”

Ele citou uma crítica de um delegado às mudanças no Ministério da Justiça, que dizia que a Polícia Federal precisava de autonomia. “Se tem alguém nesse país que precisa de autonomia é a presidente da República”, disse.

Ataques contra o PT
O ex-presidente disse que as conquistas sociais de seu governo “incomodaram muita gente” e que hoje no Brasil “ser amigo de Lula é uma coisa criminosa”. Segundo ele, há uma tentativa de “criminalizar o PT”.

Valor das palestras
Lula justificou o alto valor de suas palestras. “Ninguém queria que eu discutisse sexo dos anjos. As pessoas queriam que o Lula falasse das coisas que fez no Brasil. Que milagre fez para aprovar o Prouni, o Fies, para levar energia a 15 milhões de pobres nesse país”, disse.

“Por isso me transformei no conferencista mais caro do mundo junto com o Bill Clinton [ex-presidente dos EUA]. Várias empresas que agenciam professores, todo mundo queria me empresariar. Aqui no Instituto, quem vai empresariar somos nós do Instituto. E quando vai cobrar vai cobrar igual o Clinton”, disse. “Não tenho complexo de vira-lata. Eu sei o que fiz pelo país.”

Críticas à imprensa
O ex-presidente criticou a mídia pelas reportagens sobre as investigações da Lava Jato. Ele citou um barco supostamente de sua mulher, Marisa Letícia, e pedalinhos em um sítio em Atibaia. Sobre o terreno, disse: “Uso a chácara de um amigo porque os inimigos não me oferecem”.

Presentes
Sobre os contêineres de coisas que retirou do Palácio do Planalto ao fim do mandato, disse que foi o presidente brasileiro “que mais ganhou presentes”, porque foi “o que trabalhou mais” e o que “viajou mais”.

O Ministério Público Federal (MPF) suspeita que a OAS, empreiteira investigada na Lava Jato, pagou pelo transporte dos materiais até o sítio em Atibaia (SP) que é frequentado por Lula.

Veja no vídeo abaixo Lula deixando o diretório do PT.

Defesas
Mais cedo, o Instituto Lula divulgou nota dizendo que a 24ª fase da Lava Jato foi “arbitrária, ilegal e injustificável”. A assessoria reafirmou ainda que Lula não recebeu vantagem indevida antes, durante ou depois do seu mandato como presidente da República.

Em nota, PT chamou a condução de Lula de “ataque à democracia e à Constituição”. A defesa do ex-presidente pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão da nova fase da Lava Jato, alegando que a condução coercitiva foi “desnecessária”.

Depoimento
Lula depôs no pavilhão das autoridades do aeroporto de Congonhas por mais de três horas (veja no vídeo abaixo o momento que Lula deixa o local de depoimento). Lula seguiu para a sede do diretório do Partido dos Trabalhadores, no Centro de São Paulo.

A notícia que o ex-presidente foi conduzido coercitivamente por policiais federais para prestar depoimento se espalhou rapidamente e movimentou a frente do prédio onde reside o petista, em São Bernardo do Campo, no ABC, e o saguão do Aeroporto de Congonhas.

https://www.youtube.com/watch?v=QYn2SjEu5Xw

Arte - 24ª fase - VALE ESTA!!! (Foto: Arte/G1)

Após o fim do depoimento, uma grande confusão se instalou na frente do aeroporto. Um grupo de manifestantes pró-Lula gritava frases como “Não vai ter golpe” e “Lula guerreiro do povo brasileiro”. Grupos contra o governo levaram bonecos com a figura de Lula como presidiário ao aeroporto.

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, divulgou uma nota no início da tarde na qual diz que a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi um “ataque à democracia e à Constituição“.

Vários manifestantes pró e contra Lula se reuniram no edifício na Avenida Prestes Maia desde cedo e houve diversos momentos de confusão. Enquanto a vizinhança gritava “Fora Lula” e “Fora PT”, carros passavam buzinando em apoio à manifestação. A via está totalmente bloqueada, nos dois sentidos. Por volta das 7h30, um grupo de sindicalistas que apoiam o ex-presidente agrediu um fotógrafo que apoiou o protesto. “Levei socos, tapas e chutes”, contou o fotógrafo independente, de 50 anos, que não quis se identificar.

Com a chegada da Polícia Militar, Guarda Civil Municipal e Polícia Federal os ânimos se acalmaram um pouco. Mas a tranquilidade não durou muito tempo. Até as 9h, o G1 acompanhou pelo menos 10 tumultos. A todo instante policiais precisam intervir nas discussões.

Uma mulher que passava pelo local de carro teve o veículo atingido por arranjo de flores, jogado por um grupo pró Lula. Os manifestantes contrários ao ex-presidente reagiram e ocorreu mais uma briga.

Fogos de artifício também foram soltos em frente ao prédio de Lula. Segundo os manifestantes, foi um ato em comemoração à condução coercitiva do ex-presidente para prestar depoimento à PF. Por volta das 9h50, houve um tumulto generalizado e mais briga. Policiais militares usaram cassetetes e pelo menos um homem foi ferido.

De acordo com o major da PM Fábio, dois homens também foram detidos. Um deles por racismo, por ter chamado um petista de “macaco”, e outros dois por agressão – um por ter batido em manifestante e outro por ter agredido um policial. Os três detidos foram levados para a delegacia.

Confusão em Congonhas
Cerca de 50 pessoas se reúnem em frente à delegacia da Polícia Federal, no Aeroporto de Congonhas, na manhã desta sexta-feira fazendo fotos e gritando frases contra o PT, como “ladrão”, “algema” e “a bandeira nunca será vermelha”. Um homem começou a fazer um “L” com as mãos e começou a bater no peito, demonstrando orgulho por ter votado em Lula.

Em seguida, ele começou a ser criticado e trocar insultos com pessoas que se manifestavam contra o ex-presidente. Houve um tumulto e seguranças da PF separaram os grupos. A PM  informou ao G1 que está com 50 policiais militares no aeroporto, incluindo os que estão no prédio das autoridades.

Opositores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva protestam em frente ao posto da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde Lula prestou depoimento (Foto: Nelson Almeida/AFP)
Opositores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva protestam em frente ao posto da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde Lula prestou depoimento (Foto: Nelson Almeida/AFP)
Manifestantes entrem em confronto em frente ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou depoimento na sede da Polícia Federal no aeroporto (Foto: Nelson Antoine/AP)
Manifestantes entrem em confronto em frente ao aeroporto de Congonhas (Foto: Nelson Antoine/AP)

O vereador do PSDB Jamil Murad foi até a frente da delegacia e começou a ser chamado de “vagabundo” e “bandido” pelos manifestantes. “O Brasil está entrando em um regime de golpe, isso aqui é um golpe, um golpe jurídico contra quem foi eleito legitimamente presidente. Eles querem interromper o mandato da presidente e querer cassar aqueles que defendem o Brasil”, disse ele.

O político filiado ao PT Devanir Ribeiro esteve na delegacia e também saiu protegido por policiais, porque as pessoas começaram a gritar contra ele. Dois grupos fazem protestos no local, contra o ex-presidente Lula. Um deles no saguão, e outro em frente ao prédio onde autoridades são recebidas e onde o petista é ouvido pela PF.

Investigações
De acordo com o Ministério Público Federal (PMF), a ação foi deflagrada para aprofundar a investigação de possíveis crimes de corrupção e lavagem de dinheiro oriundo de desvios da Petrobras, praticados por meio de pagamentos dissimulados feitos por José Carlos Bumlai e pelas construtoras OAS e Odebrecht ao ex-presidente Lula e pessoas associadas;

Há evidências de que o ex-presidente recebeu valores oriundos do esquema Petrobras por meio da destinação e reforma de um apartamento triplex e do sítio em Atibaia, da entrega de móveis de luxo nos dois imóveis e da armazenagem de bens por transportadora. Também são apurados pagamentos ao ex-presidente, feitos por empresas investigadas na Lava Jato, a título de doações e palestras.

No dia 29 de fevereiro, o procurador da República Deltan Dallagnol enviou uma manifestação à ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), defendendo que uma investigação em curso sobre propriedades atribuídas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja mantida dentro da Operação Lava Jato, a cargo do Ministério Público Federal no Paraná.

Coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, Dallagnol destacou que possíveis vantagens supostamente recebidas por Lula de empreiteiras teriam sido repassadas durante o mandato presidencial do petista.