Americanas vão à Justiça para poder mostrar os seios

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Mulheres cansadas de serem obrigadas a esconder os seios e os mamilos estão desafiando as leis americanas sobre nudez e provocando um debate sobre a atitude do país em relação ao corpo feminino nu.

Em 2019, a jovem Effie Krokos, de 20 anos, venceu uma disputa judicial com o governo local e recebeu uma indenização de US$ 50 mil (R$ 200 mil). Ela foi acusada de “exposição indecente” depois de tirar a camisa em público em Loveland, Colorado. O topless ocorreu no jardim na frente da casa do noivo dela, enquanto eles jogavam frisbee.

Ela pensava que a lei no Colorado havia mudado e tirou a blusa para aliviar o calor e o suor durante o jogo — depois de o noivo também ter tirado a blusa dele. Eles são iguais, não são?

Effie KrokosDireito de imagemEFFIE KROKOS
Image captionEffie Krokos jogou frisbee sem camisa com o noivo porque pensava que isso era permitido

“Eu pensei que estivesse tudo bem porque havia uma decisão do tribunal de apelações que cobre o Colorado. Eu li um artigo dizendo que não havia problema em mulheres fazerem topless”, disse. “Era um dia quente de setembro, estava muito calor. Tirei minha camisa sem pensar muito nisso.”

No entanto, algumas horas depois, um policial apareceu para dizer a ela que houve reclamações e que ela seria acusada.

“Perguntei repetidamente ao policial qual era a acusação, mas só me disseram que eu estava incomodando os vizinhos e que havia crianças por perto, e perguntaram o que me levou a pensar que poderia fazer topless”, disse Krokos à BBC.

“Fiquei surpresa porque, se todos estamos aqui hoje, amamentados, tivemos uma mulher de topless nos dando comida. O que há de tão repugnante nisso?”

Impacto na carreira

Krokos disse que, quando o policial chegou à casa dela, ela estava completamente vestida, enquanto o noivo continuava sem camisa, e, no entanto, não havia reclamações sobre ele.

“Não é como se eu estivesse no meio da estrada, gritando ‘olhe para mim’. Eu estava jogando discretamente frisbee no meu quintal quando tirei minha blusa”, acrescentou.

Mas isso não importava. Ela teve que recorrer a advogados para que as acusações fossem julgadas improcedentes e o caso encerrado, para que não sujasse o nome dela. Se a acusação de “exposição indecente” tivesse sido mantida, isso poderia atrapalhar seu sonho de ser professora.

“Houve um risco de eu ser registrada como predadora sexual, já que a exposição indecente é um delito sexual”, disse Krokos.

Mamilos livres

Krokos pensou que estaria segura após uma decisão judicial tomada no início do ano.

Brit Hoagland e Samantha Six, ativistas do Free the Nipple, um movimento global que faz campanha pela igualdade de gênero na nudez, processaram a cidade de Fort Collins, no Colorado, para que as mulheres tivessem o direito de ficar de topless da mesma maneira que os homens são permitidos.

Em Fort Collins, mulheres de 10 anos ou mais não tinham permissão para “aparecer conscientemente em qualquer lugar público” com os seios expostos. Isso também incluía lugares privados que pudessem ser vistos por alguém que estivesse em local público.

Havia algumas exceções, como a amamentação, mas Hoagland diz que a posição do conselho da cidade “criminalizou e sexualizou crianças de mais de 10 anos” e ela queria se posicionar.

Brit HoaglandDireito de imagemBRIT HOAGLAND
Image captionBrit Hoagland processou a cidade de Fort Collins para que as mulheres tivessem o direito de ficar sem camisa da mesma maneira que os homens

Apoiada por advogados e integrantes do grupo Free the Nipple, a dupla teve sucesso em fevereiro, quando a lei da cidade sobre proibição foi declarada inconstitucional pelo tribunal responsável.

Na decisão, o juiz Gregory Phillips escreveu: “Entendemos que o interesse declarado da cidade em proteger crianças deriva não de diferenças morfológicas entre os seios de homens e mulheres, mas de estereótipos negativos em relação aos seios de mulheres, mas não os seios dos homens, como objetos sexuais.”

Em setembro, depois de gastar US$ 322 mil dólares (R$ 1,3 milhão), Fort Collins decidiu parar de brigar neste caso e reescrever suas leis locais para adequá-las à decisão do tribunal.

O jornal local The Coloradoan informou que a questão permaneceu controversa na cidade e que alguns desejavam continuar a luta judicial, afirmando que a proibição original de nudez pública refletia os valores da comunidade.

Mudança de regras

A prefeita de Fort Collins, Kristin Stephens, estava entre os que votaram para mudar a redação do código da cidade após a decisão do tribunal federal. Ela disse à BBC: “Não posso falar por todos, mas optei por não prosseguir porque senti que uma batalha legal prolongada não era o melhor para a cidade”.

Enquanto Fort Collins optou por alterar a redação de suas leis, há outras cidades e Estados que não fizeram isso.

No caso de Krokos, as leis locais de Loveland não permitem a exposição em locais públicos, mas a cidade concordou com o pagamento, seguindo conselhos de suas seguradoras, depois que o escritório de advocacia que representa Hoagland e Six se envolveu no caso.

O Departamento de Polícia de Oklahoma, por exemplo, disse que continuará a aplicar as leis locais que proíbem as mulheres de aparecerem de topless em público. O procurador-geral da cidade, Mike Hunter, disse: “Esses tribunais reconheceram que Estados e subdivisões políticas têm um interesse legítimo em proibir a nudez pública conforme definido tradicionalmente”.

Em alguns lugares, é legal as mulheres ficarem de topless. Na Filadélfia, as mulheres podem estar nuas, enquanto na cidade de Nova York o topless feminino é permitido. O site Go Topless relata que existem muitos Estados com leis ambíguas sobre o que é permitido e o que não é.

Em New Hampshire, três manifestantes do Free the Nipple foram presas em 2016 quando ficaram de topless na praia. Os ativistas agora querem que a Suprema Corte intervenha.

Expulsão de Adão e Eva por Lucas Cranach, o VelhoDireito de imagemFRANCIS G. MAYER/GETTY
Image captionA expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden, depois que tomaram conhecimento de seu estado nu, inspirou muitos artistas, incluindo Lucas Cranach, o Velho.

A professora Amy Werbel é autora de Lust on Trial, um livro que investiga a história da obscenidade nos EUA. Ela diz que a oposição americana à nudez feminina está enraizada na “oposição cristã evangélica à exibição do corpo que remonta à chegada dos puritanos na Nova Inglaterra”.

“Eles trouxeram com eles uma leitura muito particular da história do Antigo Testamento de Adão e Eva. E quando Adão e Eva entram no mundo do conhecimento, a primeira coisa que percebem sobre si mesmos é a nudez, e criam uma forma de se cobrirem.”

“É um momento crucial em que você reconhece a vergonha da nudez. E isso permanece.”

Werbel diz que nesse pensamento teológico específico, em vigor quando as leis americanas foram consagradas, o argumento é de que o corpo feminino “detém a responsabilidade sobre a queda da humanidade”.

Amy WerbelDireito de imagemAMY WERBEL
Image captionAmy Werbel diz que a América agora está vendo um ressurgimento da direita evangélica

Uma pesquisa pela hashtag #FreeTheNipple traz mais de 4 milhões de postagens no Instagram, mas as diretrizes da comunidade do Instagram afirmam que a nudez — incluindo fotos de mamilos femininos — geralmente não é permitida na plataforma, com algumas exceções.

Werbel diz: “Se alguém afirma que fez uma transição para homem, então seus mamilos são masculinos e isso será permitido. Se alguém faz a transição de homem para mulher, então os mamilos são femininos e não são permitidos”.

Ativistas em San Francisco durante camapanha 'Free the Nipple' em 2016Direito de imagemULLSTEIN BILD/GETTY
Image captionA campanha Free the Nipple chamou atenção em diversas partes do mundo.

Werbel diz que o assunto é complexo e afirma que os algoritmos das empresas de mídia social não conseguem entender as nuances, como se a imagem postada mostra arte protegida por liberdade de expressão ou pornografia ilegal.

Não é mais discreto

Kathryn Watzel, presidente da Associação Americana de Nudez Recreativa (AANR, na sigla em inglês), diz que mais pessoas estão agora lutando nos tribunais por seu direito legal à nudez.

“No passado, muitas dessas tentativas eram mais silenciosas e discretas e as pessoas não levavam a julgamento, mas agora é um caso diferente”, diz ela. “As coisas mudam, as atitudes mudam. Lembre-se de apenas 20 anos atrás: amamentar em público gerava um olhar negativo de muitas pessoas”.

Kathryn J WatzelDireito de imagemAANR
Image captionKathryn J. Watzel diz que a AANR apoiará o direito das pessoas de ficarem nuas em locais onde isso é permitido.

Watzel diz que sua família permitia nudez em casa, mas ela entendeu que esse não era o caso de todas as famílias.

“Minha mãe fazia trabalhos domésticos às vezes nua, porque era tão quente e desconfortável”, disse ela. “O passado de meu marido é diferente. Ninguém da família saía do quarto ou do banheiro sem roupas ou roupão”.

Krokos continua espantada com o que aconteceu com ela em Loveland, dizendo que em alguns Estados com nudez legal, as pessoas “não vão incomodá-la”, mas em Estados do oeste e no chamado Cinturão da Bíblia dos Estados Unidos, “é como se fosse um crime contra Deus se alguém te vir de topless. ”

“Não se trata de feminismo, trata-se de igualdade. Eu acho que os americanos têm medo de nudez, especialmente quando se trata de corpos de mulheres, porque muitos têm esse argumento na cabeça de que cada pedacinho do corpo de uma mulher é para sexo. Mas esse não é o caso.”

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