Defesa de Bolsonaro rebate hacker que tenta ligá-lo a suposto grampo contra Alexandre de Moraes

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Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Atos de 8 de Janeiro de 2023 (CPMI - 8 de Janeiro) realiza reunião para ouvir hacker, alvo de investigação que apura a inserção de dados falsos sobre ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) no Banco Nacional de Monitoramento de Prisões do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). As inserções teriam sido feitas em janeiro deste ano, antes dos atos antidemocráticos. Mesa: advogado do depoente, Matheus Moreira; hacker Walter Delgatti Neto. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) rebateu, no final da manhã desta quinta (17), as declarações feitas pelo hacker Walter Delgatti Neto de que teria planejado forjar a invasão de uma urna eletrônica durante as celebrações do 7 de Setembro de 2022, e de que teria oferecido a ele um indulto para assumir a autoria de um suposto grampo ao celular do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Walter Delgatti Neto, prestou depoimento por mais de quatro horas à CPMI que investiga os atos de 8 de janeiro, e chegou a discutir com alguns dos parlamentares presentes, entre eles o senador Sergio Moro (União Brasil-PR).

Durante o depoimento, Delgatti disse que teria participado de reuniões no ano passado com a deputada Carla Zambelli (PL-SP) e outros membros do PL, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, o presidente do partido, Valdemar da Costa Neto, e o marqueteiro Duda Lima, para tratar sobre urnas eletrônicas.

Sem apresentar provas, Delgatti disse que aceitou a alegada proposta da deputada, porém, não teve acesso ao grampo. Também acusou Bolsonaro de prometer dar proteção a ele.

“Nesse grampo teriam conversas comprometedoras do ministro e ele [Bolsonaro] precisava que eu assumisse esse grampo”, disse Delgatti, afirmando também que a suposta intercepção teria sido realizada por uma pessoa fora do país.

Ele disse ainda que a intenção da campanha de Bolsonaro seria transformá-lo em “garoto propaganda”. “Eu era o hacker da Lava Jato, seria difícil a esquerda questionar a autoria [do grampo]”, disse Delgatti à relatora da CPMI do 8 janeiro, senadora Eliziane Gama (PSD-MA).

Durante o depoimento, Delgatti assumiu ter feito invasões dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e de tribunais de justiça, que foram alvos da operação recente que o levou à prisão.

O hacker, que é um criminoso conhecido, não apresentou provas materiais de suas alegações.

Na quarta-feira (16), Delgatti prestou depoimento à Polícia Federal (PF) por cerca de quatro horas. Segundo a defesa do hacker, ele apresentou provas de que teria recebido R$ 40 mil da deputada Carla Zambelli (PL-SP) para invadir “qualquer sistema do Judiciário”. A deputada nega irregularidades e diz que contratou o hacker apenas para fazer a manutenção em seu site.

Ele está preso desde agosto, no âmbito da operação 3FA da Polícia Federal que também cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados à deputada federal Carla Zambelli. O hacker ainda tinha autorização do STF para ficar em silêncio na CPMI, mas decidiu responder às perguntas dos parlamentares.

Delgatti Neto é o mesmo hacker que foi acusado de invadir aplicativos de mensagens do ex-procurador Deltan Dallagnol e do ex-juiz da Lava Jato, Sergio Moro, e vazar informações que depois foram usadas para destruir a operação.

Quebra dos sigilos de Bolsonaro e demais citados
Com as novas declarações prestadas à CPMI nesta quinta (17), a relatora da comissão, senadora Eliziane Gama, afirmou que vai pedir a quebra dos sigilos telemático e de inteligência financeira, conhecido como RIF, de Bolsonaro e do coronel Marcelo de Jesus, citado por Delgatti em outro trecho do depoimento por intermediação dele com o Palácio do Planalto, além de outros citados.

A senadora afirmou, ainda, que dependendo do que for apurado nas quebras dos sigilos, pode pedir o indiciamento do ex-presidente. “De posse desses elementos é que vamos ter condições de dizer se ele vai ser indiciado ou não”, afirmou em entrevista à GloboNews pouco antes do intervalo da sessão.

Ela afirmou, ainda, que a comissão vai apurar a possível ligação do desvio de presentes oficiais do governo para venda nos Estados Unidos com os atos de 8 de janeiro a partir das quebras dos sigilos. Segundo Eliziane, é possível que até mesmo os garimpos ilegais em terras indígenas tenham direcionado recursos para financiar o protesto que levou à invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília.

Defesas negam declarações de Delgatti
A Gazeta do Povo tenta contato com as defesas dos citados pelo hacker Walter Delgatti.

O advogado Fabio Wajngarten, que defende o ex-presidente, publicou nas redes sociais uma série de mensagens negando as afirmações de Delgatti.

Em uma delas, Wajngarten afirma que “em nenhum momento sequer cogitaram a entrada de técnicos de informática, muito menos alpinistas tecnológicos na campanha” de Bolsonaro, e que desconhece “quem tenha feito reunião individual com Bolsonaro cuja duração tenha sido de 1 hora e meia”.

“Nunca, jamais, houve grampo, nem qualquer atividade ilegal, nem não republicana, contra qualquer ente político do Brasil por parte do entorno primário do Presidente. Mente e mente e mente”, disparou Wajngarten.

O advogado disse, ainda, que convive com o ex-presidente desde 2016 e que Bolsonaro “jamais sugeriu qualquer briefing publicitário para produção de qualquer roteiro de filme ou propaganda”. “Para o depoente de hoje, o Presidente seria um Spielberg de temas eleitorais”, completou afirmando que o político “sempre jogou dentro das quatro linhas” e que não pediria para fraudar as eleições.

Já o advogado Daniel Bialski, que defende Carla Zambelli, afirmou que a deputada “refuta e rechaça qualquer acusação de prática de condutas ilícitas ou imorais”, negando o que ele chama de “aleivosias e teratologias” mencionadas por Delgatti.

Ele afirma que o hacker é uma pessoa sem credibilidade que muda de versões e que sua palavra é “despida de idoneidade”. Bialski disse, ainda, que não teve acesso aos autos dessa investigação e que vai se manifestar publicamente “assim que possível”.

O marqueteiro Duda Lima negou ter se encontrado com Delgatti e disse estar “indignado” com as afirmações. “O rapaz diz que eu teria pedido pra ele fazer uma apresentação no desfile de Sete de Setembro. Pensa comigo: ele iria no carro do presidente com a primeira-dama? Que ideia ridícula, poderia ao menos respeitar a minha inteligência”, disse em entrevista na GloboNews.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também rebateu as declarações de Delgatti de que tenha pedido a invasão ao celular de Alexandre de Moraes, e que não tinha motivos para isso.

” Tudo conversa mole. Não tinha motivo para grampear celular de Moraes. Só bobagem. Em agosto, eu me dava muito bem com o Alexandre de Moraes, fui até tomar café da manhã na casa dele aqui em Brasília. Nossa briga começou na campanha, depois do primeiro turno das eleições”, disse em entrevista à CNN Brasil.

Costa Neto reforçou uma declaração recente de que Delgatti esteve na sede do partido em Brasília, no ano passado, a pedido de Carla Zambelli para falar da fiscalização das urnas. No entanto, em nenhum momento houve tratativas para a invasão. Ele também negou que o marqueteiro Duda Lima tenha participado da reunião — “disse besteiras”, completou.
Gazeta do Povo

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