Marcelo Adnet e Nelson Rodrigues eram uma só pessoa em Goiás: Edson Costa

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Morre o jornalista Edson Costa, especialista em esportes e polícia, que na coluna Distrito Zero revelava o lado engraçado das ocorrências sérias

Edson Costa era o detetive da máquina azul. Vieram computador pessoal, notebook, smartphone, todo tipo de tablet, mas se manteve fiel à Olivetti mil novecentos e antigamente. A redação do Diário da Manhã foi pioneira na informatização — exceto para seus dois maiores astros, o editor-geral Batista Custódio e Edson Costa. Quando as ocorrências policiais eram como as laudas dos jornalistas, datilografadas em papel jornal, ambas se misturavam na mesa de Costinha, como era chamado por alguns. Sério, nem parecia que aquele sujeito sisudo estava escrevendo os mais bem-humorados textos da crônica brasileira. Na noite de quinta-feira, 11, ocorreu um atentado à graça nacional: Edson Costa morreu por complicações dos males de Parkinson e Alzheimer, que há década o fazia sofrer.

Ainda meninão, Edson Costa foi trabalhar no Jóquei Clube de Goiás, à época o máximo da chiqueza. Começou fazendo serviços gerais. Esperto que só ele, logo foi localizando onde era mais fácil se livrar da faxina e de servir mesas. Acabou nas corridas de cavalo. Alguém notou sua sagacidade e, num tempo em que o auge da tecnologia eram caneta e caderneta, encarregou Edson Costa de anotar os vencedores dos páreos. Assim, virou correspondente de jornais e rádios — dava nomes dos jóqueis, cavalos e suas classificações. Nascia o jornalista.

Do turfe, Costinha alargou os assuntos e passou a cobrir também outras modalidades e calhou de se dar bem no futebol. Sua diferença: não se envolvia com paixão clubística, nem com atletas e muito menos com os dirigentes. Por que, então, mudou de área, passando a acompanhar casos policiais?

“Tem muito menos bandidos nas cadeias que nas diretorias dos esportes”, indignava-se o jornalista. Por isso, preferia noticiar os marginais que vão presos aos que vão para os aplausos das torcidas. “Os cartolas são mais perigosos que os ladrões comuns”, sentenciava Edson Costa.

No Diário da Manhã, atingiu seu auge com a coluna “Distrito Zero”. Sua matéria-prima eram as ocorrências policiais referentes a crimes mais prosaicos que graves. Aí se tornou o Nelson Rodrigues do Cerrado, narrando a vida como ela é com cacofonias, socos, pontapés, empurrões e xingamentos.

Hoje, se diria que Edson Costa era mistura de Nelson Rodrigues com Marcelo Adnet. Os casos do “Distrito Zero” em nada distavam de “A vida como ela é”, inclusive no perfil psicológico dos personagens: ninguém prestava, todos alegravam. Além disso, eram gente de carne e osso, como os objetos do deboche de Marcelo Adnet no “Sinta-se em casa”. Outra qualidade incomum entre os três autores: não perdoavam ninguém, afinal, muito menos os malfeitores.

Pessoalmente, Edson Costa era um sujeito maravilhoso. Ficava enfezado quando alguma pauta furava porque era, antes de tudo, repórter. Seu maior motivo de ira: “Por que todo iniciante no jornalismo ou bicho problemático vocês mandam pra Editoria de Polícia? Bota na Política, que tem mais bandido”. Ué, a campeã em gente que não presta deixou de ser a de Esportes? “Ah, ninguém vale nada em lugar nenhum”.

A raiva passava rapidamente, ainda mais se dona Julieta Carmelita dos Santos passasse rapidamente pelo jornal. Havia duas eras, AJC e DJC. Não, não era antes e depois de Jesus Cristo, mas de Julieta Carmelita. Case-se com o primeiro romeu que amar você como o Costinha amava a shakespeariana Julieta. Conheceram-se em decorrência da profissão de um e do drama da outra. Nunca mais se separaram. Está na moda banalizar as palavras herói/heroína e [email protected] Dona Julieta é uma heroína, uma guerreira, que realmente ficou com Edson Costa na saúde e nas longas doenças.

Costinha descansou. Quem o substituiu não foi a tecnologia dos equipamentos, mas o politicamente correto. A chatice das patrulhas consegue ser pior que a quarentena, pois esta seria alegre se ainda estivesse aberto o Distrito Zero.

O corpo de Edson Costa está sendo velado até 13h30 desta sexta-feira no espaço Fênix (Morro do Além, de onde Edson tirou muito assunto para suas notinhas de a vida como ela continua sendo nos distritos). Será enterrado logo após, no cemitério Jardim da Saudade, no Setor Maísa, saída para Trindade.

Enquanto aguarda-se que alguém reedite o “Distrito Zero”, busque Nelson Rodrigues na prateleira ou na internet e Adnet na Globoplay. Riu muito? Pois é, nosso Costinha era do tipo.

Nilson Gomes, Jornal Opção

 

*O corpo do jornalista está sendo velado na Funerária Fênix e deve ser sepultado às 15h no Cemitério Jardim da Saudade.

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