O comunista toma o céu de assalto, por Nilson Jaime

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Pego na estante o exemplar “de atualizações” do volumoso (1.146 páginas) livro “Família Jayme – Genealogia e História”, de minha autoria, onde anoto os nascimentos, falecimentos, casamentos e outras informações necessárias a uma segunda edição que preparo para o livro da biografia de oito mil descendentes dessa família originária da antiga Meia-Ponte, hoje Pirenópolis, mas formada no  Planalto de Piratininga quinhentista com o Cacique Tibiriçá e João Ramalho, primórdios da colonização brasileira.
Acesso a página 656 para anotar o dia do falecimento de Sílvio Costa, nascido em 24/03/1953, em Lagolândia, distrito de Pirenópolis famoso por ter sido, outrora, o reduto de Benedita Cipriano Gomes, a “Santa Dica”.
Na foto do livro, o sociólogo e professor Silvio Costa – formado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) – se apresenta sorridente, abraçado à companheira de quatro décadas, a líder feminista e doutora em Educação Lúcia Rincón – professora da PUC Goiás, como ele – e os filhos João Carlos, Paula e Sílvio Neto.
Lembrei-me da intensa movimentação do velório, acontecido ontem, 15/02, no Cemitério Jardim das Palmeiras, com centenas de amigos das lides estudantis, sindicais, partidárias e também familiares.
O ex-prefeito Pedro Wilson, os ex-deputados Aldo Arantes, Denise Carvalho e Fábio Tokarski; os outrora líderes estudantis Romualdo Pessoa (professor da UFG), Adalberto Monteiro, Deusmar Barreto, Osmar e Eliomar Pires (Presidente da Associação de Egressos da UFG) e um sem número de lideranças partidárias da esquerda, amigos sindicalistas, professores e alunos da PUC Goiás. Daria para fazer ali uma assembleia da antiga Viração; do PCdoB; do Comitê Goiano pela Anistia; do Comitê Goiano Pelas Eleições Diretas Para Presidente da República, ou do Sindicato dos Professores do Estado de Goiás (Sinpro-GO), do qual Sílvio Costa foi presidente, ou ainda da Associação dos Professores da PUC Goiás (APUC), onde era conselheiro fiscal.
Mas, como na música “Zum Zum” (1950), de Paulinho Soledade e Fernando Lobo (gravada também pelo filho Edu Lobo), “tá faltando um”: “Hoje o bloco está mais triste sem ele / Tá faltando um!” Não dá pra fazer assembleia ou iniciar movimento algum em Goiás, ou criar qualquer Comitê, que almeje a liberdade, a democracia ou o socialismo democrático, sem Sílvio Costa, o solidário. Vai fazer falta os “abraços fraternos” de Sílvio, ao se despedir.  “Bateu asas, foi embora, / não apareceu/ Nós vamos cair sem ele, / foi a ordem que ele deu”. A vida vai continuar, mas com a sensação do vazio que Sílvio deixou.
Dentre os livros do professor Silvio Costa, o mais conhecido é “Comuna de Paris – o proletariado toma o céu de assalto”, com três edições pela Editora Anita Garibaldi, associada com a Fundação Maurício Grabois e a Editora da PUC Goiás.
Na segunda edição (2011, 244 páginas) um pouco da utopia do pesquisador Socialista, e do conteúdo da obra, segundo o próprio autor, escrito a mão: “Nilson, a experiência da Comuna de Paris de 1871, a primeira tentativa de organização de uma sociedade, é uma demonstração evidente de que é possível ela seja mais fraterna, solidária e igualitária. O futuro será socialista!” (23/11/2019).
Na dedicatória da terceira edição, atualizada, ampliada e ilustrada (2021, 305 páginas): “Primo Nilson Jaime, neste livro são relatados a ousadia, a bravura e o heroísmo dos ‘communards’ parisienses que, com seu sangue, tomaram o céu de assalto e demonstraram a necessidade de destruição da sociedade de classes fundamentada na exploração e opressão, e construção de uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária. Na expectativa de que essa obra lhe seja útil, desejo que a mesma contribua para ampliar seus conhecimentos sobre o tortuoso caminho rumo à construção de uma sociedade socialista. Grato por sua contribuição para tornar esta edição uma realidade. Boa leitura! Abraços fraternais. (Goiânia, 03/08/2021)”.
Assim era Sílvio Costa. No seu vocabulário eram recorrentes as palavras sociedade, igualdade, fraternidade, liberdade, justiça.
Na hora das despedidas, uma dezena de casais de araras canindé (“Ara araraúna”) grasnava nos “olhos” das Palmeiras imperial do local. Sobre o corpo inerte, cujo rosto mantinha-se inexplicavelmente corado e com o ar sereno que sempre foram marcas de Sílvio, a bandeira do Movimento feminista; a bandeira do Brasil que Sílvio lutou como urso para subtrair recentemente ao fascismo; e a bandeira do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ao qual dedicou sua existência.
O amigo Adalberto Monteiro, velho companheiro de partido, fez a elegia sem métrica, a pedido de Lúcia Rincón. A emoção tomou conta de todos e todas. E todes! Seis minutos ininterruptos de palmas para Sílvio. O hino da Internacional Socialista. E o homem solidário e fraterno se foi.
São Pedro e todos os anjos e potestados celestiais: uni-vos! Chegou a solidariedade e a fraternidade em pessoa. Deus, em todos os seus nomes e formas, conseguiu um laboroso militante do bem. O comunista vai tomar o céu de assalto.
Nenhuma descrição de foto disponível.Nilson Jaime é doutor em Agronomia, Presidente do Instituto Cultural Bernardo Elis (Icebe) e editor-geral do “Projeto GOIÁS +300, Reflexão e Ressignificação”.
*Publicado por A Redação

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