Turismo midiático: o Brasil não virou o século, por Franthiesco Ballerini

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Novas tecnologias e plataformas de mídia podem impulsionar o turismo de um país, preservando sua cultura e atraindo milhões de visitantes. Ideias de atrações turísticas que o Brasil só ganharia em investir mas que estamos décadas atrasados

Um país minúsculo como a Turquia recebe, em média, 36 milhões de turistas internacionais por ano. Um país fechado e de língua difícil como a China recebe 58 milhões. A Malásia, minúscula, língua Carnaval-em-Recife-PE-2016 difícil e longe de ser uma grande economia mundial, atrai 25 milhões de visitantes de fora. Já o Brasil, imenso, uma das oito maiores economias do mundo, de língua ocidental, não recebe mais do que 6 milhões de turistas de fora por ano.

Não é de hoje que os índices do turismo brasileiro dão vergonha dentro e fora do país. Um dos dinheiros mais limpos e geradores de emprego do mundo, a renda do turismo poderia alavancar ainda mais a economia em tempos de recessão. Mas como optar por viajar para o Brasil quando, por exemplo, o principal destino turístico do país, o Rio de Janeiro, tem problemas como pilhas de lixo aos pés do Cristo Redentor, filas imensas para vans e trens e um serviço de hotel e restaurantes de irritar qualquer um? Como optar por conhecer o nordeste quando uma passagem para o outro lado do mundo pode sair mais barata
que ir para, digamos, Natal (RN)?
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Mas não é só por isso que o Brasil perde feio em atratividade turística. Ficamos tão acomodados em ser um dos países com as mais belas paisagens naturais do mundo que simplesmente não fizemos esforços em criar uma boa infraestrutura ao redor dos mesmos – ou mesmo preservar tais locais. Rio de Janeiro e Salvador são símbolos disso: belíssimas cidades, mas campeãs de pontos turísticos sujos e com serviços lamentáveis. Ao contrário, muitos países bem menores, de natureza pobre, souberam erguer verdadeiros chamarizes de turistas. Até países desérticos como a Arábia Saudita recebem mais turistas do que nós – o triplo de visitantes internacionais, segundo o World Tourism Ranking da ONU.

E começamos o século 21 em grande desvantagem naquele ramo que mais pode atrair visitantes internacionais: o turismo midiático. Turismo midiático é aquele construído em torno ou com uso de tecnologias de novas mídias. É também aquele cujo conteúdo é ligado à mídia e, por conseqüência, todos atraem grande atenção da mídia mundial. Os parques de Walt Disney, museus de cinema, da imprensa e de tecnologia são exemplos disso. Vamos imaginar um Brasil com as seguintes atrações turísticas:

EcoSpa Amazônia – Um verdadeiro resort ecologicamente correto no meio da selva amazônica. Tão grande quanto parques temáticos, mas utilizando energia sustentável solar e de rios, com imensos quartos de vidro com vista em 360 graus da floresta amazônica, oferecendo contatos monitorados com a vida selvagem, comidas típicas da região, tudo que uma rede Sandalls do Caribe oferece, com a diferença de estar no maior santuário ecológico do mundo.

Parque da Mônica – Esqueça esse parque pequeno que existe dentro de um shopping em São Paulo com os personagens de Maurício de Souza. E nem precisa inventar nada de original. Basta copiar as experiências bem sucedidas de Walt Disney, aliando tecnologia de ponta para verdadeiras experiências midiáticas e brinquedos interessantes aos visitantes deste parque, todos com personagens que fazem parte da infância de qualquer brasileiro, com direito a muitas lojas e desfiles de personagens.

Museu do Diamante – Minas Gerais foi um dos maiores produtores    de diamantes do mundo, mas cada vez menos gente sabe disso.    Um museu do diamante, com direito a belíssimos exemplares de
diversos tamanhos e uma experiência holográfica e interativa    imitando uma mina de diamante.

Casa do Pelé – Em Santos, poder-se-ia erguer um museu aberto    a visitação dentro da casa onde morou Pelé. Assim como a casa    de Anne Frank em Amsterdã, atrairia milhões de visitantes do
mundo inteiro, por motivos óbvios.

Parlamento do Mercosul – Embrenhado talvez em alguma capital    do sul do país ou mesmo em Brasília, poderia imitar o Parlamento    Europeu em Bruxelas (Bélgica), com a história do Mercosul, a
história de cada um de seus países e uma grande sala com telões mostrando as grandes imagens e momento do encontro de seus líderes. E que tal uma Mini América Latina, uma versão em miniatura das principais cidades do subcontinente, como existe em Bruxelas?

Museu da Cachaça – A bebida brasileira mais internacionalizada do mundo mereceria um excelente museu com todos os tipos de cachaça feitos no país, degustação, passeio interativo pela produção, loja de produtos, camisetas etc.

Cidade do Samba – Um grande complexo ao redor da Sapucaí incluindo um completíssimo museu sobre toda a história do samba no Brasil, objetos e relíquias das escolas e seus grandes nomes, filmes e salas interativas com os desfiles, os samba-enredos e uma loja com miniaturas de tudo que se pode inventar para levar para casa de escolas e desta festividade mundialmente conhecida.

Museu da Ditadura – Também se baseando fortemente em novas plataformas e tecnologias de mídia, inspirados no Museu do Holocausto e todos os grandes museus europeus que falam das grandes guerras, este museu poderia abordar a ascensão e queda das grandes ditaduras na América Latina, de modo interativo, educacional e rico em entretenimento.

Arranha-céus – Prédios altíssimos servem não só para concentrar escritórios e comércio em um só local, mas acabam atraindo milhões de visitantes, quando nele se coloca, no seu topo, um observatório com vista para toda a cidade, painéis de vidro, restaurantes, loja de lembranças etc. Onde estão os arranha-céus brasileiros? Porque paramos de construí-los há décadas? Como é possível Paris e Londres, cidades centenárias e antigas por natureza, terem prédios mais modernos que São Paulo?

Cartões Postais – Somos um país refém do Corcovado e do Pão de Açúcar. E olha que grande parte da beleza de um deles foi feito pela natureza, e não pelo homem. Em qualquer grande cidade do mundo, monumentos são erguidos, atraindo a atenção do mundo. Em sua volta, florescem restaurantes, museus e todo o bairro é remodelado. No entanto, qual é o cartão postal de São Paulo? Uma ponte estaiada? Será que a história do Brasil e de São Paulo são tão pobres a ponto de sermos reféns apenas do Monumento às Bandeiras? Porque não criar monumentos pomposos, enormes, em homenagem, por exemplo, ao Frevo, um imenso monumento ao Sertanejo no interior do Brasil, à imigração européia no Sul, imigração holandesa no Nordeste etc.

Não é difícil ter mais idéias de como alavancar o turismo no Brasil, com o suporte de novas tecnologias que tornarão a experiência com um tema ou área cultural um momento de grande entretenimento para o turista nacional e estrangeiro. Mas um país continental como o nosso, sem malha ferroviária turística que o integre, com passagens aéreas caras e hospedagens limitadas, tudo isso torna difícil viabilizar a chegada de milhões de turistas para todas estas novas atrações. É um trabalho de décadas, que países menos exuberantes como o nosso, como Japão, Turquia, Espanha, Austrália, China e Inglaterra iniciaram nos confins do século 20. É o tipo de investimento que traz dinheiro mesmo durante crises financeiras. Investimento a longuíssimo prazo.

Mas de que adianta sermos um país tão rico em cultura e paisagens naturais se o dinheiro das pessoas que podem preservar toda essa memória ainda chega timidamente no Brasil? Não é à toa que o turismo no Rio de Janeiro melhora a passos muito lentos. Sendo uma das poucas cidades do país a oferecer beleza natural e alguns poucos monumentos, para que melhorar os serviços e a infraestrutura se não há concorrente interno disputando a passagem e a hospedagem do turista?

Franthiesco Ballerini é jornalista, autor dos livros ‘Diário de Bollywood – Curiosidades e Segredos da Maior Indústria de Cinema do Mundo‘, ‘Cinema Brasileiro no Século 21′ e ‘Jornalismo Cultural no Século 21′.

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Franthiesco Ballerini é Coordenador Geral na Academia Internacional de Cinema

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