Preso e com a comunicação limitada, Jair Bolsonaro quebrou uma perna e meia de Gilberto Kassab ao acordar num belo dia e decidir que o primogênito, Flávio Bolsonaro (PL), seria o representante da família nas eleições presidenciais de 2026.
O cacique do PSD, até onde se sabe, tinha outros planos para outubro. Um deles era usar o apoio do agro e outros setores da economia e transformar o governador Tarcisio de Freitas (Republicanos) em adversário de Lula (PT) na disputa pelo Planalto.
A solução deixaria aberto o caminho para Kassab disputar a cadeira vaga de governador paulista.
O que parecia balão de ensaio virou papo sério e, ao que tudo indica, o Zero Um será mesmo candidato a presidente.
Kassab não deixou barato e botou para rodar o plano B. Ele acaba de filiar ao seu partido o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que não encontrou na antiga legenda, o União Brasil, o respaldo para desafiar os Bolsonaro e concorrer à Presidência.
O chefe do PSD tem nas mãos agora três possibilidades. Os (ainda) governadores Eduardo Leite (RS), Ratinho Júnior (PR) e o próprio Caiado. O que vai fazer do caldo (um super candidato? um super vice? um apoio caríssimo no segundo turno?) ninguém sabe direito. Mas algum plano ele tem.
Kassab não sobreviveu à toa a tanto tempo, tantas tempestades, e tantos pêndulos entre direita e esquerda na dinâmica da história brasileira.
A jogada deixou Tarcísio numa sinuca de bico. Não fosse Jair Bolsonaro, ele ainda seria um burocrata sem brilho à espera de uma oportunidade política. Bolsonaro botou nele a fantasia de gestor e instalou um aliado no Palácio dos Bandeirantes. Bater de frente com Flávio – logo, na decisão do ex-chefe – seria suicídio político. Sem os votos do ex-presidente, Tarcísio em 2022 não seria eleito nem síndico de prédio.
O problema é que para governar ele teve de se associar a Kassab. “Associar” é maneira de dizer. Tarcísio basicamente entregou ao seu secretário de Governo a caneta e as chaves do cofre. Pudera: sem Kassab, o carioca Tarcísio não saberia pegar o metrô da Sé até o Morumbi, onde fica a sede do Governo.
O dilema agora, para um político tão obediente, é decidir quem obedecer. Se ao ex-chefe, a quem deve a trajetória política, ou à eminência parda que viabilizou seu governo.
Não se sabe o que sairá do encontro, na Papudinha, entre Tarcísio e Bolsonaro. Mas lá certamente será formatada a versão que todos verão durante a campanha.
O problema da fidelidade é equilibrá-la enquanto serve a dois senhores.
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