quinta-feira, março 12, 2026
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Sem pastores midiáticos e discreta: a igreja evangélica que ‘exporta’ músicos para as principais orquestras do país

A música ocidental deve à Igreja Católica algumas de suas mais bonitas e transcendentais composições. Parte significativa da música erudita surgiu para louvar a Deus e atrair novas “ovelhas” para o rebanho de fiéis católicos.

Antonio Vivaldi, que além de violinista virtuoso foi padre, dedicou parte da carreira prolífica no século 18 à música sacra. No Brasil do mesmo período havia Frei Jesuíno do Monte Carmelo, que além de pintor, escultor e arquiteto, também foi compositor.

De lá para cá, a Igreja Católica mudou — assim como a ligação entre o catolicismo e a produção de novos talentos da música clássica.

No Brasil, as transformações no perfil da religiosidade e no papel social das igrejas e templos pelo país deslocou o eixo, criando uma dinâmica nova: hoje, um número relevante dos músicos que entram nas orquestras do país vem de igrejas evangélicas.

No caso da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (Ojesp), 80% a 90% de seus músicos estão ligados a igrejas pentecostais, diz à BBC News Brasil seu diretor musical e maestro titular, Cláudio Cruz.

A maioria vem da Congregação Cristã no Brasil (CCB), a segunda maior denominação pentecostal do país, com 2,29 milhões de fiéis ou 5,4% dos evangélicos, conforme os dados do último Censo.

Jhony no anfiteatro da Sorbonne em Paris
Arquivo pessoal -Jhony no anfiteatro da Sorbonne, em Paris: começou na música aos 6 anos, na CCB de Itaquaquecetuba

Dirigentes e professores de música voluntários

A denominação, que chegou ao Brasil há mais de um século mas se constituiu oficialmente como entidade em 1932, orgulha-se de ter o que ficou conhecida como “maior orquestra do Brasil” — chegou mesmo a ser a “maior do mundo”, mas teria perdido o título informal para a venezuelana El Sistema, que celebrou ano passado seu cinquentenário e revelou ao mundo o maestro Gustavo Dudamel, que este ano assume a direção musical da Filarmônica de Nova York.

Talvez orgulho não seja uma palavra apropriada aqui, por ausente do léxico da CCB, que tem como norma de conduta uma modéstia quase patológica: comunica-se pouco com a comunidade externa, não tem pastores midiáticos ou que apoiem pública e vocalmente esse ou aquele político e, intramuros, não remunera dirigentes, coordenadores, professores de música nem os músicos que tocam nos cultos.

Eventuais composições de “irmãos” com o intuito de ampliar o hinário de louvor executado nos cultos ficam anônimas, pois tampouco existe na CCB assunção de autoria.

“Não há aqui reconhecimento do homem, do nome, da pessoa. Ninguém é exaltado, ninguém é galardoado. Se o que temos veio de Deus, então [a obra] é de Deus, não daquele nome”, disse à reportagem por WhatsApp Cláudio Moraes, encarregado regional, responsável pelas orquestras de várias igrejas do Estado de São Paulo.

O violinista Jhony Santos, hoje na Ojesp, já integrou a Orquestra Experimental de Repertório e ano passado “spallou“, ou seja, foi o spalla, o principal destaque de toda a orquestra em uma apresentação em Paris.

Tem apenas 19 anos, algo coerente com uma carreira musical bastante precoce: ele começou aos 6 anos na igreja, a CCB de Itaquaquecetuba, na região metropolitana de São Paulo, onde ainda mora com a mãe. Aos 7 começou a tocar violino.

Quando “congrega”, ou seja, quando toca em algum culto da CCB, algo que faz regularmente, ele sabe que não está se desafiando musicalmente — o que seria importante para quem busca aperfeiçoamento e já este ano tenta uma vaga para estudar na Alemanha ou na Áustria —, mas isso não parece incomodá-lo: “Na igreja eu toco com o intuito de adorar [a Deus], ali não importa se o cara toca muito ou toca pouco, o importante é fazer música com o coração, fazer o louvor ‘subir’.”

Johny na Orquestra Jovem do Estado de São Paulo

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Johny na Orquestra Jovem do Estado de São Paulo

No aquecimento para apresentações da Ojesp, e também da Jovem Tom Jobim, outra orquestra paulista, esta dedicada exclusivamente ao repertório nacional, é muito comum que os músicos “puxem” os hinos que eles ainda tocam nos templos e com os quais se iniciaram na música.

Além dos louvores da CCB, é comum se ouvir os da Assembleia de Deus, que rivaliza com a Congregação na formação de músicos para as orquestras paulistas e é de longe a maior denominação evangélica do país, com 12,31 milhões de adeptos —29,1% dos evangélicos, ainda de acordo com as estatísticas do Censo de 2022.

Foi lá que se iniciou na música a violinista Otielen Luz, 24 anos, titular da Jovem Tom Jobim e este ano suplente na Ojesp.

À BBC, ela disse que “sempre sonhou em tocar na orquestra da igreja”, mas quando chegou lá, primeiro no teclado, aos 7 anos, e finalmente no violino, aos 10, considerou “difícil” o repertório.

Ainda hoje ela acha relativamente complexo o que é tocado na Assembleia.

Adolescente, Otielen passou pela Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp Tom Jobim), a porta de entrada mais utilizada pelos integrantes das orquestras paulistas, e foi se desenvolvendo no violino.

Ela ainda se mantém ligada à Assembleia de Deus, regendo um coral de jovens adultos todos os domingos pela manhã em Osasco.

E diz que chega a conduzir até 70 pessoas, em uma divisão de gênero bastante equânime e com todas as vozes clássicas de um coral, inclusive tenor.

O que varia ali, segundo ela, são as disposições de espírito. “Há pessoas muito dedicadas, que estão no coral há dez anos, e há os turistas, com quem a gente tem de conversar para ver o que está acontecendo. Ninguém é dispensado, afinal somos todos voluntários, e a ideia é que todos continuem vindo.”

Otielen Santos tocando em orquestra

Crédito,Arquivo pessoal

Legenda da foto,Ligada à Assembleia de Deus, Otielen Luz começou no teclado aos 7 anos de idade

As restrições colocadas aos músicos na Assembleia de Deus são, de forma geral, bem menores do que as estabelecidas na CCB. Os hinos podem ser recriados e rearranjados por seus maestros e mulheres são liberadas para tocar diversos instrumentos.

Nas orquestras da Congregação, as mulheres estão limitadas a aprender e tocar apenas órgão. Todos os demais instrumentos melódicos (metais e cordas) ficam reservados aos homens, uma prática que acaba tendo impactos no equilíbrio de gênero dos músicos das orquestras paulistas.

Na Ojesp, elas são apenas 22% dos bolsistas neste ano, um número em linha com a média dos últimos anos, apesar do incremento das ações afirmativas, como a prioridade na indicação de regentes-assistentes mulheres e repertórios compostos exclusivamente por mulheres.

O desequilíbrio de gênero não agrada a Cláudio Cruz, ele mesmo um fiel da CCB na adolescência, nos anos 1980, quando havia mais restrições para os músicos da igreja — não tocar por dinheiro ou trabalhar aos sábados, por exemplo.

Ao longo de sua carreira, o maestro Cruz teve de lidar de alguma maneira com essas limitações. “Já tive muitos problemas com músicos vindo de igrejas que diziam que não podiam executar certas peças, ‘Carmina Burana’, por exemplo, a ‘Sinfonia dos Orixás’, de Almeida Prado, ou o ‘Maracatu do Chico Rei’ [de Francisco Mignone]. Vinham falar comigo, mas eu propunha em troca que parassem de fazer bicos em casamentos, baladas, no samba, no Carnaval, em terreiros… Aí eu quebrava as pernas deles.”

O coordenador regional Cláudio Moraes, da CCB, explica que a norma de fazer das “irmãs” apenas organistas não é uma decisão dogmática, mas meramente administrativa. Justificam-na a capacidade feminina de “executar diversos trabalhos ao mesmo tempo” e a “necessidade de acomodar os muitos músicos que se formam na igreja”.

Para Moraes, como o órgão é um instrumento harmônico, supostamente mais difícil de aprender e executar, capaz de produzir algumas notas simultaneamente, diferentemente dos instrumentos melódicos como a flauta ou o saxofone, optou-se por entregar o órgão às mulheres.

“Cientificamente falando, as mulheres têm mais habilidade para fazer atividades múltiplas ao mesmo tempo. Então o que a igreja pensou lá atrás? Se as mulheres ficarem no órgão e os homens nos instrumentos melódicos, há grandes chances de preenchermos as vagas que abrimos nas igrejas”, disse à BBC.

Otielen Santos
Arquivo pessoal-Otielen Luz chega a conduzir até 70 pessoas na Assembleia de Deus

Expansão evangélica nas periferias

Para Cruz, o aumento da participação de igrejas evangélicas na formação de talentos da música clássica no país é explicado em parte pelo aumento dos projetos sociais capitaneados por elas nas periferias.

Não existem estatísticas consolidadas sobre o tema, mas as próprias denominações dão pistas em seus sites ou redes sociais da envergadura desses projetos.

A Vitória em Cristo, por exemplo, há cerca de 20 anos mantém a Associação Beneficente Projeto Elikya, que “abençoa” com oficinas gratuitas de reforço de aprendizagem, música, esportes, informática, artes e “apoio emocional” por volta de mil crianças. A atuação é principalmente na cidade do Rio de Janeiro, mas também no Vale do Jequitinhonha (MG) e em Luanda, capital de Angola.

A Igreja Batista da Lagoinha, surgida em Belo Horizonte e que ganhou bastante espaço no mundo laico ao apoiar Jair Bolsonaro e seu grupo político, também conta oficialmente, há oito anos, com a Fábrica de Artes, instituição com o objetivo declarado de formar “uma nova geração de artistas, que expressará louvor a Deus das mais diversas formas”.

A sede fica em Belo Horizonte, em prédio projetado por um pastor da Lagoinha com 70 salas e teatro para 400 pessoas. Ali são oferecidos cerca de 20 cursos nas áreas de música, teatro e dança, para crianças e adultos, não necessariamente fiéis da Lagoinha.

No Paraná, o projeto Dorcas, ligado à Associação Evangélica Cristo Redentor, confluência de igrejas luteranas surgida em Curitiba, utiliza a música como eixo educacional.

Mais de 5 mil crianças e adolescentes são assistidos em projetos como o Música no Bairro, que busca desenvolver “habilidades emocionais, cognitivas e sociais” com práticas de canto coral e aulas de flauta doce e de outros instrumentos de sopro.

Os exemplos se multiplicam pelo Brasil, sintomas de como a comunidade evangélica se expande.

O crescimento do número de fiéis dessas denominações foi captado pelo Censo de 2022: em relação ao recenseamento anterior, de 2010, a população que se declara evangélica passou de 21,6% para 26,9%, ao passo que os católicos, então 65,1%, diminuíram para 56,7%.

Fonte: BBC

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