Em julho de 2019, o FBI fez uma busca na mansão de Jeffrey Epstein (1953-2019) em Nova York, nos Estados Unidos — no mesmo dia em que ele foi preso por tráfico sexual de menores.
Os agentes abriram à força um grande cofre, onde encontraram diamantes, maços de dinheiro, passaportes, pastas com CDs e discos rígidos.
Mas uma questão relacionada ao mandado impediu que eles levassem os objetos. E, quando os agentes retornaram com um novo mandado, o cofre havia sido esvaziado na sua ausência, segundo documentos do FBI.
Richard Kahn, contador de Epstein desde 2005, havia ordenado aos funcionários da mansão que embalassem duas malas com o conteúdo do cofre e as enviassem para sua casa, segundo os agentes.
Quando o FBI conversou com o advogado de Kahn da época, o contador concordou em entregar as malas intactas, mas não quis que os agentes viessem à sua casa e se recusou a dizer quem havia dito a ele que retirasse os objetos.
Uma fonte próxima da investigação sobre Epstein declarou à BBC que não sabia se Kahn já havia sido investigado ou entrevistado em relação aos processos criminais contra o financista condenado por pedofilia.
O atual advogado de Kahn declarou à BBC News que seu cliente cooperou totalmente com os pedidos do FBI.

Kahn e o advogado de Epstein de longa data, Darren Indyke, são os únicos administradores do seu espólio. Eles controlam todas as suas posses e patrimônio.
São nomes pouco conhecidos, mas a dupla agora detém o controle sobre as compensações devidas a sobreviventes e os segredos contidos nos documentos ainda mantidos pelo espólio de Epstein.
Estes documentos foram entregues ao Comitê de Fiscalização da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, mediante solicitação.
Como parte da sua investigação sobre a rede de Epstein, o comitê do Congresso intimou a dupla a prestar depoimento. Kahn compareceu na quarta-feira (11/3) e Indyke deverá testemunhar na quinta, 19 de março.
A BBC conversou com pessoas associadas às investigações sobre Epstein, examinou documentos de diversos processos judiciais e analisou o material mais recente dos arquivos de Epstein, publicados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
O objetivo foi tentar descobrir mais sobre a suposta participação dos dois homens na vida de Epstein e após a sua morte.
Epstein nomeou Indyke e Kahn como executores do seu testamento em agosto de 2019, apenas dois dias antes de morrer na prisão, enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual de menores.
Ele revisou seu testamento para transferir todo o seu patrimônio para um fundo com o nome do ano do seu nascimento, a ser administrado pelo advogado e pelo contador.
No seu papel de executores, Indyke e Kahn concordaram em pagar acordos de compensação e incluíram condições para evitar que sobreviventes que aceitassem os pagamentos apresentassem novas ações judiciais pessoais contra eles. Outras acusações ainda estão pendentes.
Como beneficiários do fundo, cada um dos dois também poderá receber dezenas de milhões de dólares do que restar após o pagamento das indenizações.
Ainda não se sabe ao certo o valor do espólio de Epstein. Calcula-se que fosse de cerca de US$ 635 milhões (cerca de R$ 3,28 bilhões) na época da sua morte, segundo a empresa de advocacia Edwards Henderson, que representa grande parte das sobreviventes.
Uma das mulheres abusadas por Epstein, que pediu para permanecer anônima, contou à BBC que Indyke e Kahn tinham questões a responder sobre o que eles sabiam sobre a sua “organização”.
“Jeffrey era apenas uma pessoa”, declarou ela. “Não há como ele tenha conseguido acompanhar tudo isso sozinho.”
“Sempre dizemos ‘siga o dinheiro’, certo? Se você seguir o dinheiro, poderá entender muito sobre como esta operação era conduzida.”
Os processos judiciais afirmam que Indyke ou Kahn (frequentemente, ambos) “tinham autoridade para assinar virtualmente todas as contas mantidas por Epstein”, ou seja, eles tinham autorização para realizar transações.
A dupla também ajudou a administrar diversas empresas de Epstein. Algumas delas, segundo os processos, existiam apenas para atender à sua operação de tráfico sexual.
O advogado de Kahn declarou à BBC que “não existe base para essas acusações” e que as empresas de Epstein não operavam para ocultar suas atividades.
“Virtualmente todas elas eram entidades que pagavam impostos, cuja propriedade nunca foi oculta”, segundo ele.
Crédito,DMG Media
Kahn e Indyke teriam recebido milhões de dólares em honorários e empréstimos de Epstein, pago sobreviventes e até ajudado a viabilizar casamentos em coerção para mulheres traficadas do exterior para possibilitando que elas permanecessem nos Estados Unidos, segundo documentos apresentados à Justiça.
Uma das ações afirma que ninguém, exceto Ghislaine Maxwell (ex-socialite britânica e, agora, associada condenada de Epstein) era “tão essencial e central para as operações de Epstein” quanto Indyke e Kahn.
O congressista americano Suhas Subramanyam, membro do Comitê de Fiscalização da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, declarou à BBC News que “eles talvez sejam duas das melhores pessoas com quem conversar” para saber melhor como Epstein administrava suas operações.
“Certamente, as vítimas os mencionaram como pessoas que conheciam alguns dos crimes de Jeffrey Epstein, não apenas os negócios financeiros, mas até o tráfico sexual”, afirma ele.
Kahn e Indyke negaram qualquer irregularidade nas suas interações com Epstein e não foram acusados criminalmente.
“Nenhum juiz, de nenhum tribunal, concluiu que o sr. Indyke ou o sr. Kahn tenha cometido qualquer irregularidade, de nenhum tipo”, declarou à BBC o advogado de Indyke, Daniel Weiner.
“Nenhuma mulher acusou nenhum dos homens de cometer ou presenciar abusos sexuais, nem afirmou, em nenhum momento, ter reportado a eles qualquer acusação de abuso do sr. Epstein.”
A mulher abusada por Epstein contou à BBC que o comparecimento dos homens perante o comitê era aguardado porque as sobreviventes “clamavam por eles há muito tempo”.
“Eles precisam responder por tudo isso”, afirma ela.
“Só espero que as pessoas realmente falem e simplesmente não apelem à Quinta Emenda e fiquem ali sentadas em silêncio, pois ninguém irá ganhar com isso.”
Além do testemunho programado, como executores do espólio de Epstein, Indyke e Kahn forneceram ao Comitê de Fiscalização da Câmara “milhares de páginas de documentos, fotografias e outros materiais” quando intimados, segundo o advogado de Indyke.
Mas alguns itens, como as mensagens do livro de aniversário de Epstein, vieram com supressões feitas antecipadamente pelos próprios executores. A equipe jurídica de Indyke e Kahn afirma que elas foram feitas para proteger a identidade das vítimas.
Os homens do dinheiro
Kahn não era apenas o contador de Epstein.
Os documentos da companhia indicam que ele exerceu uma atividade paralela como gerente de uma companhia de design de Nova York nos anos 2010.
Mas os papéis apresentados à Justiça sugerem que a companhia era parte de um conjunto de empresas usadas por Epstein para canalizar dinheiro para as vítimas e para as pessoas que recrutavam mulheres que seriam vítimas de abuso.
Estes detalhes foram revelados em documentos de um processo judicial movido pelas Ilhas Virgens Americanas contra o espólio de Epstein e seus executores, Indyke e Kahn, baseado em “tráfico humano e fraudes financeiras”.
O caso levou a um acordo em 2022. O espólio concordou em pagar mais de US$ 105 milhões (cerca de R$ 542 milhões) em dinheiro, além de metade da renda obtida com a venda de uma das ilhas particulares de Epstein.
Os documentos judiciais do caso afirmam que a dupla ajudou Epstein a gerenciar 140 contas bancárias.
Crédito,Departamento de Justiça dos EUA
Uma das contas bancárias da companhia de design foi totalmente financiada com dinheiro transferido das contas pessoais de Epstein, segundo os documentos do caso.
A ação judicial afirma que, no papel, a proprietária da empresa de design era uma mulher que estava sendo abusada sexualmente por Epstein e era paga através da companhia.
A outra pessoa que estava na folha de pagamento da empresa foi relacionada por Kahn como designer em alguns documentos fornecidos ao banco, segundo os arquivos do caso.
Mas a ação afirma que outro documento de Kahn revelou que ela tinha ocupação completamente distinta, o que sugere que não havia razão legítima para que a companhia pagasse um salário para ela.
O advogado de Kahn afirma que não há base para as acusações de que seu cliente estivesse envolvido em atividades ilegais ou irregulares.
“O trabalho do sr. Kahn para Epstein foi exatamente o mesmo tipo de contabilidade que milhares de profissionais fornecem para seus clientes todos os dias”, declarou Dan Ruzumna à BBC.
Os documentos do caso indicam que Indyke e Kahn também usaram outra empresa de Epstein, registrada nas Ilhas Virgens Americanas, para emitir cheques no valor de US$ 300 mil (cerca de R$ 1,5 milhão) para jovens mulheres ou para um advogado de imigração que ajudou mulheres vítimas de tráfico a permanecer nos Estados Unidos.
Kahn não emitiu cheques “para mulheres jovens e/ou um advogado de imigração em nome de Epstein, pois ele não era procurador de nenhuma conta bancária de Epstein até pouco antes da morte de Epstein”, afirma Ruzumna, seu advogado.
“As entidades corporativas de Epstein atendiam interesses comerciais legítimos, como empregar funcionários da casa, pagar despesas associadas a um dado bem de propriedade daquela entidade corporativa, fazer contribuições para a caridade e garantir o pagamento adequado de impostos”, destacou ele.
Indyke fez repetidas retiradas de dinheiro, aparentemente com o propósito de fornecer fundos ao criminoso sexual condenado, sem acionar as exigências bancárias de fornecimento de informações, segundo os documentos judiciais das Ilhas Virgens Americanas.
As mulheres exploradas sexualmente por Epstein afirmam que ele usava dinheiro vivo para fazer pagamentos a elas e às pessoas que recrutavam novas vítimas.
Os documentos do caso dizem que, em uma das ocasiões, Indyke levou dois cheques para um banco de Nova York e sacou o dinheiro. Foram US$ 7,5 mil (cerca de R$ 39 mil) de uma das contas pessoais de Epstein e US$ 4 mil (cerca de R$ 21 mil) da conta empresarial de Indyke.
Ele sacou um dos cheques e, segundo os documentos, disse que retornaria no dia seguinte para receber o segundo e “evitar toda a burocracia”.
Ao longo de dois anos, Indyke sacou cheques 45 vezes, usando outra conta pessoal de Epstein. Foram US$ 7,5 mil por vez, que é o limite bancário para retiradas de terceiros, segundo os documentos judiciais.
A ação judicial também afirma que houve 97 retiradas de US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) diferentes em menos de um ano de um caixa automático a pouca distância do escritório de Indyke, mas não especifica quem sacou o dinheiro.
Indyke e Kahn “tiveram lucros significativos com seu relacionamento com Epstein”, segundo os documentos do caso nas Ilhas Virgens Americanas.
Entre 2011 e 2019, Indyke recebeu US$ 16 milhões (cerca de R$ 82,5 milhões) e Kahn, US$ 10 milhões (cerca de R$ 52 milhões) de Epstein e suas empresas, segundo os documentos da ação nas Ilhas Virgens.
Estes valores incluem empréstimos que teriam sido “perdoados” por Epstein em seu testamento.
Os montantes seriam “novas evidências da natureza ilícita do trabalho realizado por eles [Indyke e Kahn]”, segundo os documentos.
O advogado de Indyke, Daniel Weiner, declarou que “o sr. Indyke e o sr. Kahn negam todas estas afirmações de culpa, responsabilidade, irregularidades ou danos de qualquer tipo”.
Um documento dos arquivos de Epstein que, aparentemente, é o testamento do pedófilo, indica que Indyke e Kahn também têm direito a uma “remuneração anual” pelo cargo de executores, no valor de US$ 250 mil (cerca de R$ 1,3 milhão) e que seus honorários legais são cobertos pelo espólio.
Mas o advogado de Kahn, Ruzumna, declarou à BBC News que o testamento “dispõe… que cada um receba um pagamento único de US$ 250 mil por administrar o espólio”.
O advogado de Indyke afirmou que os executores “nunca agiram para colocar seus próprios interesses acima das suas tarefas como executores. Eles continuam a administrar o espólio… de total acordo com a legislação aplicável.”
Casamentos forçados
Epstein incentivou algumas das mulheres traficadas por ele do exterior a encontrar cidadãos americanos para se casarem — frequentemente outra mulher — e garantir que elas pudessem permanecer no país.
Após sua condenação por solicitação de prostituição de uma menor no Estado americano da Flórida, em 2008, ele se concentrou em encontrar e abusar de mulheres do Leste europeu, que eram “mais isoladas, dependentes e vulneráveis”, segundo o processo das Ilhas Virgens Americanas.
“Acho que está na hora de você encontrar uma namorada americana”, escreveu Epstein em um e-mail para uma mulher não identificada, em março de 2013. “O casamento com o mesmo sexo será a forma mais rápida de obter o green card [o documento que dá direito à residência permanente nos EUA]. De longe.”
No mesmo ano, outra mulher não identificada enviou um e-mail para Epstein, dizendo: “Vamos agora conseguir a licença de casamento. E ela pergunta se é possível se reunir com você? Porque ela tem algumas perguntas.”
A BBC teve acesso a uma certidão de casamento entre duas mulheres, uma das quais se apresentou posteriormente dizendo ter sido vítima de abuso.
O caso das Ilhas Virgens Americanas, que foi objeto de acordo entre as partes, acusou Indyke e Kahn de “facilitarem conscientemente” pelo menos três casamentos entre vítimas americanas e estrangeiras, sob coerção da operação de tráfico de Epstein.
Houve ameaças de “sérios danos corporais e à reputação”, caso elas se recusassem ou tentassem fugir.
Eles conduziram o trabalho legal e contábil para elaborar “uma fraude que vinculava ainda mais as vítimas a Epstein”, permitindo que ele as controlasse e abusasse sexualmente delas, segundo os documentos do caso.
Indyke e Kahn negam as acusações.

Uma mulher americana repetidamente abusada por Epstein e pressionada para fazer sexo com seus associados comerciais por mais de uma década foi forçada a entrar em um casamento facilitado por Indyke, segundo os documentos judiciais.
O objetivo era evitar que outra vítima de Epstein fosse deportada dos Estados Unidos, segundo os documentos. E o procurador-geral das Ilhas Virgens Americanas afirmou que Indyke e um advogado de imigração de Nova York começaram imediatamente a ajudar a preparar a vítima para sua entrevista junto às autoridades americanas de imigração.
Kahn forneceu uma carta de referência para o processo de imigração, segundo os documentos judiciais.
Quando a mulher pediu para pôr fim ao casamento e ir embora, os documentos do caso afirmam que Indyke tentou repetidamente convencê-la a não se divorciar e “a ameaçou de perder a proteção de Epstein e seus associados”.
O advogado de Kahn, Ruzumna, declarou à BBC que seu cliente acreditava estar fazendo um favor a ela e não participando de uma farsa. E que a mulher e sua parceira agradeceram a ele por fornecer a carta de referência.
O advogado de Indyke, Weiner, não comentou especificamente nenhuma das acusações sobre os casamentos.
Apesar de Epstein ter ocupado as manchetes globais por mais de uma década com suas atividades criminosas, os advogados de Indyke e Kahn afirmam que seus clientes rejeitam categoricamente qualquer indicação de que “teriam facilitado ou assistido conscientemente o sr. Epstein nos seus abusos sexuais ou tráfico de mulheres, ou que tivessem conhecimento das ações do sr. Epstein enquanto forneciam serviços legais e contábeis, respectivamente, ao sr. Epstein”.
A liquidação do espólio
Em 2020, Indyke e Kahn, na sua capacidade de executores, entraram em um acordo com o Programa de Compensação das Vítimas de Jeffrey Epstein (EVCP, na sigla em inglês). Este programa oferece às sobreviventes uma oportunidade de buscar justiça financeira pelos abusos sofridos.
Para garantir que as reivindicações das mulheres ficassem “livres de qualquer interferência do espólio de Epstein”, segundo EVCP, foi introduzido um administrador independente.
O número de reivindicações foi mais que o dobro do esperado.
Documentos judiciais indicam que 136 mulheres receberam um valor reunido de US$ 121 milhões (cerca de R$ 624 milhões) do espólio de Epstein. Outros 59 pedidos de indenização de outras sobreviventes foram acertados com um total de US$ 48 milhões (cerca de R$ 248 milhões).
Indyke e Kahn aprovaram a liberação dos fundos do espólio “para pagar os custos e honorários legais de outros co-conspiradores”, também segundo os documentos judiciais.
Ambos, Indyke e Kahn, negam esta afirmação e declararam à BBC que o espólio não pagou os honorários legais de “nenhum conspirador conhecido dos crimes de Epstein”.
Além disso, segundo uma ação judicial apresentada no mês passado, o espólio de Epstein concordou em pagar até US$ 35 milhões (cerca de R$ 181 milhões) a sobreviventes que se recusaram a se inscrever no programa de compensação e acionaram Indyke e Kahn pessoalmente, alegando que a dupla facilitou as atividades de tráfico sexual do financista condenado e “escolheu o dinheiro e o poder, em vez de respeitar a lei”.
Antes do depoimento dos dois homens no Capitólio, o advogado de Indyke, Daniel Weiner, declarou que “os srs. Indyke e Kahn têm total intenção de dar continuidade à sua cooperação com o Comitê e aguardam a oportunidade de esclarecer o seu não envolvimento com as improbidades de Epstein”.
Paralelamente, a sobrevivente anônima fez a seguinte questão à BBC News:
“Quando você fala nesses enormes montantes, esse dinheiro ofusca e prevalece sobre a vontade e a necessidade de fazer o que é certo? Não sei. E cabe a eles decidir moralmente. Espero que eles façam o que é certo.”
Com colaboração de Paul Myers.BBC
