A Volkswagen informou na quinta-feira, 9, que reduzirá em até metade o número de modelos que oferece ao mercado para diminuir custos e competir melhor com as empresas chinesas. A montadora alemã, porém, não explicou o que essas mudanças significarão para os trabalhadores, que já vinham se preparando para grandes cortes de empregos e o fechamento de fábricas.
O plano, divulgado após uma reunião do conselho, parece representar um reconhecimento implícito de que a empresa se tornou grande e complexa demais e precisa enxugar sua estrutura para sobreviver à transição global dos carros movidos a combustíveis fósseis para os veículos elétricos — uma mudança que abalou muitas montadoras tradicionais e abriu espaço para a ascensão das fabricantes chinesas.
Nos últimos dias, reportagens da imprensa alemã indicavam que a empresa se preparava para demitir 100 mil trabalhadores até o fim da década e fechar quatro fábricas na Europa.
Cortes tão drásticos seriam incomuns para a Volkswagen e para a indústria alemã, que tradicionalmente preferem mudanças graduais. Representantes dos trabalhadores e líderes políticos do estado alemão da Baixa Saxônia detêm a maioria das cadeiras do conselho de supervisão da empresa, composto por 20 membros, e já haviam sinalizado que não apoiavam cortes profundos.
“A situação geopolítica se tornou mais crítica nos últimos 12 meses”, disse Blume, acrescentando: “Os próximos anos decidirão quem desempenhará um papel decisivo na indústria automotiva.”
No entanto, ele deu poucos detalhes, inclusive sobre se — e como — a empresa pretende continuar sendo a segunda maior montadora do mundo em vendas de veículos, atrás apenas da Toyota.
“As perguntas mais urgentes não foram respondidas hoje pelo conselho de supervisão”, afirmou Ferdinand Dudenhöffer, diretor do Center Automotive Research, em Bochum, na Alemanha, em um e-mail. “A insegurança permanece.”
“Se a Audi morrer, tudo aqui morre”, afirmou Cayli Halin, de 54 anos, que trabalha no centro de testes da fábrica.
O anúncio de quinta-feira também não esclareceu quantos dos 657 mil funcionários da Volkswagen em todo o mundo poderão perder seus empregos à medida que a empresa reduz a produção. O lucro da companhia caiu 28% no primeiro trimestre, para 1,6 bilhão de euros (US$ 1,8 bilhão), enquanto as vendas recuaram 2%.
As dificuldades da Volkswagen são um sinal preocupante para as montadoras tradicionais do Ocidente e do Japão. Em diferentes níveis, todas enfrentam os desafios das mudanças tecnológicas e da concorrência de fabricantes chinesas como BYD e Geely, que vendem carros repletos de equipamentos de luxo por preços relativamente baixos.
Impulsionadas por subsídios governamentais, as montadoras chinesas passaram a investir fortemente em veículos elétricos há vários anos. Esses investimentos lhes deram uma vantagem significativa à medida que mais europeus passaram a comprar esse tipo de veículo. Atualmente, cerca de um em cada cinco carros novos vendidos na Europa é elétrico, e as vendas dispararam neste ano devido ao aumento dos preços dos combustíveis provocado pela guerra com o Irã.
Os temores de fechamento de fábricas abalaram a Alemanha, onde a indústria automobilística — e a Volkswagen em particular — ocupa um lugar quase simbólico na identidade nacional e representa um dos pilares da economia do país.
O chanceler Friedrich Merz e seu governo tentaram fortalecer o setor com novos subsídios e pressionando autoridades da União Europeia, em Bruxelas, para flexibilizar algumas regulamentações do setor automotivo, entre outras medidas, na esperança de ajudar as montadoras alemãs a competir melhor com as rivais chinesas.
Merz não comentou os rumores sobre as demissões na Volkswagen antes da reunião do conselho desta quinta-feira, mas seu porta-voz, Stefan Kornelius, disse aos jornalistas na semana passada que “nosso objetivo é evitar o fechamento de fábricas na Alemanha”.
Ali Alp Cagan, de 31 anos, trabalha como profissional de tecnologia da informação na Audi há quase dois anos e afirma não estar pessoalmente preocupado com demissões, pois considera que tem boas perspectivas profissionais.
“De forma geral, porém, o clima já é de nervosismo”, disse.
Cagan e outros funcionários que deixavam a fábrica durante uma recente troca de turno responsabilizaram a própria empresa pela situação, afirmando que ela deixou de inovar e que a China hoje produz carros mais baratos e melhores.
