O Brasil aceitou o inaceitável, por Rogerio Pires

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“El Salvador é pouco.” A frase saiu da boca de Flávio Bolsonaro na terça-feira, 13, diante de empresários reunidos pela Associação Comercial de São Paulo, e foi seguida de um recado a quem o chama de radical: “Aqueles que acham que eu sou radical na segurança pública não viram nada ainda”. Em um país onde o cidadão vive aterrorizado, esconde o celular no ônibus e muda de calçada ao ver uma moto, alguém finalmente falou como quem entende o tamanho do problema.

Pense na sua rua. Quantos vizinhos já foram assaltados? Quantos já desistiram de usar o telefone em público? A insegurança virou rotina, e a rotina virou resignação. Flávio quebra essa resignação com números que cabem na conversa de padaria: mais de meio milhão de vagas em presídios, pena mínima de 8 anos para quem roubar celular, castração química e penas maiores para estupradores e abusadores de mulheres e crianças.

Comece pelas vagas. A proposta, apresentada em junho, prevê cinco presídios federais com 500 mil vagas, inspirados no modelo de El Salvador. Quem vive de assalto e facção sabe que cadeia vazia não assusta ninguém. Hoje o criminoso calcula o risco e conclui que compensa. Com vaga, regra e execução da pena, essa conta muda. E Flávio não jogou o número ao vento: em 30 de agosto, ele próprio estimou o investimento em R$ 35 bilhões a R$ 40 bilhões em quatro anos. É uma fração do que o país perde todos os anos com roubo, tráfego de drogas e dinheiro que financia o crime organizado.

Agora o celular. Para o governo Lula e para a esquerda que passou duas décadas tratando assaltante como vítima da sociedade, oito anos de pena mínima soa exagero. Para quem já entregou o aparelho sob a mira de uma arma, e perdeu fotos, contas bancárias e a sensação de estar seguro, soa justiça. O celular hoje é a carteira, o documento e o endereço de trabalho do brasileiro. Roubá-lo é atingir a vida inteira da vítima, e a lei precisa dizer isso com todas as letras.

A castração química de estupradores é outro ponto que a esquerda prefere tratar como tabu. A medida já passou pela Câmara e aguarda o Senado. Quem a defende pergunta o que é mais violento: a medida contra o condenado ou o crime contra uma criança? É uma pergunta que o PT evita responder, e que o eleitor, pai e mãe, responde em segundos.

O recado de Flávio ao lado de Guilherme Derrite também diz muito. Derrite comandou a segurança em São Paulo e conhece o chão onde o crime opera. Ao dizer que conversa com ele sobre o tema, o candidato sinaliza que a proposta tem gente de experiência por trás, e não só slogan de palanque. Somam-se a isso as demais medidas do plano: tratar facções como organizações terroristas, reforçar fronteiras e o Porto de Santos, ampliar câmeras e reconhecimento facial.

Na mesma terça, Flávio ainda apareceu ao lado de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes, e se reuniu com motoboys, justamente os que mais sofrem com roubo de moto e de celular na capital paulista. Não é coincidência. A segurança pública deixou de ser pauta de nicho e virou o centro da escolha de 2026.

Por que isso incomoda tanto o establishment? Porque desmonta uma narrativa de décadas. Disseram que prender mais não resolve, que o problema é social, que o endurecimento é coisa de extremista. Enquanto isso, o brasileiro enterrou parentes, fechou comércios e entregou a rua às facções. Quem falhou foi a política da leniência, e não a da cadeia.

Quando um candidato diz que El Salvador é pouco, ele não está falando de copiar um país. Está dizendo que o Brasil aceitou por tempo demais um nível de crime que nenhuma nação séria toleraria. E que a resposta do Estado precisa ter a dimensão do medo que o cidadão sente todos os dias.

O que o governo atual fez, em quase quatro anos, para dar ao trabalhador a certeza de voltar para casa com o próprio celular no bolso? A pergunta fica no ar, e o eleitor tem até as urnas para respondê-la.

Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.

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