89% da população mundial vive em países onde casamentos estão ficando mais raros. Enquanto isso, relacionamentos não monogâmicos ganham espaço no debate público e no Tinder. Entenda as origens biológicas e sociais da vida a dois – e por que ela está mudando.
Em março de 2023, o Tinder lançou um pacote de atualizações para os seus mais de 75 milhões de usuários ao redor do mundo. A partir dali, tornou-se possível incluir qual tipo de relacionamento você está buscando no app: monogâmico ou não monogâmico.
Dá para ser um pouco mais específico. Você pode colocar que está atrás de um relacionamento aberto – no qual o casal tem certas liberdades extraconjugais, como beijar outras pessoas sem compromisso –, ou de uma relação poliamorosa, que possibilita envolver-se romanticamente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.
O Tinder não foi o primeiro a fazer isso. A plataforma pegou carona no Hinge,outro aplicativo de namoro que adicionou essas opções no final de 2022. As duas marcas pertencem à mesma empresa, o Match Group, que fatura US$ 3 bilhões por ano com plataformas de paquera.
Junto às atualizações, o Tinder revelou os resultados de uma pesquisa com quatro mil usuários entre 18 e 25 anos. Apenas 52% eram monogâmicos, enquanto 41% estavam em busca (ou não descartavam a a possibilidade) de relações não monogâmicas.
Essas novas opções em apps de namoro refletem uma dinâmica que tem se tornado cada vez mais trivial, especialmente entre os mais jovens. A pergunta “Você namora?”, não raro, vem com outra engatada: “mas é aberto ou fechado?”.
Em 2016, um estudo da empresa YouGov perguntou a 1,3 mil americanos qual é a forma de relacionamento ideal. O questionário tinha sete opções em gradiente: de “completamente monogâmico” (a resposta de 61% dos entrevistados) a “completamente não monogâmico” (7%). No total, 34% das pessoas escolheram algum nível de não monogamia.
Em 2023, a YouGov refez a pesquisa. O número de americanos que idealizam um relacionamento monogâmico caiu para 55%. Os que preferem algo completamente não monogâmico cresceu para 8%. E a taxa de indecisos saltou de 5% em 2016 para 11%. As pessoas podem não ter desistido da monogamia – mas estão ao menos pensando sobre outros arranjos.
Outro estudo (1) americano analisou duas amostras do censo do país e descobriu que um em cada cinco solteiros esteve, em algum momento da vida, em relacionamentos não monogâmicos. De forma consensual, claro. Não confunda com traição.
No Brasil, em um estudo (2) com 5,2 mil pessoas, 8% disseram estar em uma relação não monogâmica – e essa parcela se mostrou menos ciumenta do que o restante dos entrevistados. Somos o terceiro país que mais pesquisa sobre esse assunto na internet.
O aumento das discussões sobre não monogamia acontece em paralelo a outro fenômeno: nunca nos casamos tão pouco. 89% da população mundial vive em países onde a taxa de casórios está caindo. Nos EUA, por exemplo, a taxa diminuiu 60% desde os anos 1970.
No Brasil, o número de casamentos foi de 1,1 milhão em 2015 para 757 mil em 2020 – queda de 33%, segundo o IBGE. O número, diga-se, começou a cair antes da pandemia, ou seja: não é só culpa dela. Desde então, no pós-covid, os casórios até voltaram a subir (em 2022, foram 970 mil), mas não chegaram aos níveis da década anterior.
O número de divórcios, por outro lado, só cresce. Em 2022, foram 420 mil – 28% a mais do que em 2015. Por aqui, quase metade das separações se dá nos primeiros dez anos de matrimônio.


Há muitas explicações socioeconômicas para o que está acontecendo – falaremos mais sobre elas adiante. Mas, para entrar nessa conversa, é preciso antes entender quais são as raízes evolutivas da da monogamia e quais forças moldaram a dinâmica dos casais ao longo da história. Uma história que começa há 2 bilhões de anos.
Gametinhas e gametões
Transar dá trabalho. Seja qual for a espécie, sair à procura de um parceiro gasta tempo e energia, além de ser potencialmente perigoso. A cauda do pavão chama a atenção da pavoa, mas também atrai predadores.
Não só: um animal bem adaptado ao seu habitat corre o risco de apostar no cavalo errado e combinar seus genes com os de alguém menos apto – e, assim, dar origem a uma prole com pouca chance de sobrevivência. Sem contar o perigo de contrair uma doença durante o rala-e-rola e transmiti-la para os bebês. Mau negócio.
Espécies assexuadas não têm essa dor de cabeça. No tipo de reprodução conhecido como partenogênese, a fêmea dá origem a clones de si mesma, sem que um gameta precise fecundar o outro. Assim, todos os seus descendentes terão o mesmo DNA e poderão engravidar, já que o processo elimina os machos da equação.
Ótimo – só que não. Apenas algumas dezenas de crustáceos, peixes, anfíbios e répteis se reproduzem dessa forma. Entre as plantas, só 0,1% das 300 mil angioespermas (que produzem flores)
Por quê?
Porque os benefícios do sexo compensam suas desvantagens. No curto prazo, a mistura de genes dificulta a infecção de parasitas: mesmo que bactérias, vírus e protozoários tenham a chave no sistema imunológico, a fechadura da geração seguinte será diferente. Os bebês agradecem.
Já no longo prazo, o nheco-nheco aumenta as chances de combinar genes vantajosos em um único indivíduo, que poderá passá-los adiante até se tornarem onipresentes. O inverso também acontece: um pobre coitado pode acabar com um combo de genes nocivos, que farão com que ele seja eliminado mais mais rápido – interrompendo a propagação desses alelos.
Transar, então, é uma boa. Mas ainda ficam algumas dúvidas. Por que, afinal, existem dois sexos? Não seria mais fácil se todos os seres fossem hermafroditas e resolvessem sua reprodução in the house? Por que só metade de nós consegue engravidar?
Acredita-se que, no início, as espécies sexuadas eram isogâmicas: produziam gametas do mesmo tamanho, que podiam se juntar com quaisquer outros gametas.
Era um oba-oba.
Volta e meia, porém, surgiam gametas maiores, com mais nutrientes. Uma atração e tanto para os outros gametas – e quem mais tirava proveito disso eram as células menores, mais simples, que conseguiam se fundir rapidamente com o gametão.
Milhões de anos de evolução eliminaram o meio termo. Sobraram os extremos: de um lado, os indivíduos que investiam energia em cultivar poucos, porém suntuosos gametas. Do outro, aqueles que se tornaram especialistas em gerar um enxame de gametinhas. Eis a raiz da diferença entre fêmeas e machos, fundamental para entender o comportamento sexual de cada um e a como eles lidam com a sua prole. É o que vamos ver agora.
Unidos venceremos
O objetivo de todo organismo é passar seus genes adiante. Claro que ninguém pensa ativamente sobre isso, mas nosso corpo oferece um sem-fim de estímulos (alô, orgasmo) para nos deixar um tiquinho próximos da reprodução.
Existem duas estratégias básicas para garantir herdeiros. A primeira é gastar energia produzindo o máximo de bebês no menor tempo possível. É o que fazem as ostras, por exemplo, capazes de lançar até 100 milhões de ovos por ano no mar. Nesse esquema, a prole é gigantesca e os pais não cuidam dela. Resultado: só alguns sortudos sobrevivem. Um sapo pode botar seis mil ovos de uma vez, apenas 2% dos girinos vivem para contar história.
Por outro lado, há quem prefira qualidade em vez de quantidade. São animais que têm poucos filhotes, mas que investem tempo e energia para cuidar deles. É o caso dos mamíferos, cujos bebês podem passar anos se alimentando do leite materno. Com o tempo, o filhote se desenvolve, fica mais independente e os pais podem pensar em ter um caçula.
Não existe uma única estratégia correta. Fatores externos (a disponibilidade de alimento, a época do ano em que a espécie se reproduz, os predadores) determinam qual dos modos de vida é o mais é o mais vantajoso. Aqui, vamos focar nos bichos que cuidam dos seus bonecos, pois eles vão nos ajudar a entender como a monogamia surgiu.
Imagine que você decidiu abrir o próprio restaurante. Limpou a poupança, combinou um empréstimo com o banco e, agora, está correndo atrás de funcionários, equipamentos e um endereço bacana. Seu sócio, por outro lado, investiu apenas alguns trocados – e vai passar longe da cozinha.
Gerar um filhote funciona mais ou menos desse jeito. Os sócios têm metade do negócio (no caso, 50% dos genes são são da mãe e os outros 50%, do pai). Só que o investimento inicial das fêmeas é muito maior. Elas gastam recursos com óvulos grandes e raros. E vão gastar ainda mais para formar o bebê (e, no caso dos mamíferos, para amamentá-lo).
São elas, portanto, quem mais têm a perder caso abandonem a prole ou escolham um parceiro ruim. É por isso que, na maioria das espécies, os filhotes ficam sob a tutela das fêmeas. Elas arregaçam as mangas para fazer com que o investimento no qual depositaram todas as suas fichas deslanche. Não é justo, nem bonito. Mas, na natureza, é uma regra com poucas exceções.
O cuidado materno costuma dar conta do recado. Enquanto os bebês crescem numa boa, os machos vão gastar energia por aí atrás de outras parceiras (pois é). Mas nem sempre é assim. Às vezes, a falta de comida, o ambiente inóspito e a presença de predadores são problemas tão grandes que a vida de mãe solteira torna-se impossível. Para os machos também é ruim, porque dificulta a tarefa de encontrar alguém disposto a transar.
Por essas, alguns animais tiveram mais sorte juntando as escovas. “A monogamia é uma estratégia para tempos difíceis”, diz o biólogo Marco Antonio Corrêa Varella, especialista em psicologia evolucionista dos relacionamentos amorosos pela USP. O maior exemplo são as aves: 90% das espécies têm algum nível de relação monogâmica. E é fácil entender por quê.
Aves vivem dispersas. Podem voar para qualquer canto. Mas essa autonomia tem um preço. Por irem atrás de recursos em um território tão abrangente, elas se tornam alvo de mais predadores –de aves maiores. Quando um pássaro macho encontra uma fêmea, eles não pensam muito antes de montarem o seu ninho de amor. Juntos, terão mais chances de sobreviver e criar os filhotes.

Quando o vínculo sexual entre os animais é exclusivo, diz-se que a espécie
pratica monogamia genética. Fidelidade total. Mas isso é raro: mesmo entre
os passarinhos, só 14% agem assim.
A forma mais comum de monogamia é a chamada monogamia social, em que
os animais unem forças, mas sem exclusividade sexual. Essa parceria pode
durar a vida toda ou, o que é mais comum, acontecer em série: o casal se junta
por ao menos uma estação reprodutiva e, depois, parte para outra.
Algo entre 3% e 5% dos mamíferos são monogâmicos. O restante se organiza
em populações poligínicas: um tipo de poligamia onde só um macho copula
com várias fêmeas, enquanto outros machos ficam na saudade.
Dentre os primatas, 30% são monogâmicos. É o caso dos gibões, que possuem
até música de casal: eles gritam em uníssono quando vão transar, tomar
banho ou passear na floresta (para não se perderem um do outro). Gorilas, por
sua vez, são poligínicos. Já chimpanzés e bonobos são promíscuos: transam o
tempo todo, seja com quem for.
Observar a anatomia desses animais ajuda a entender seus comportamentos
sexuais. Gorilas machos são duas vezes maiores do que as fêmeas – um indício
de que a seleção natural favoreceu quem conseguia afugentar competidores,
dominar uma legião de esposas e, assim, garantir parceiras fixas. Eles formam
haréns.
No caso dos chimpanzés e bonobos, a diferença no tamanho de machos e
fêmeas não é assim tão grande. Mas eles têm algo que os gorilas não tem:
testículos homéricos. São os maiores entre os primatas: pesam 149 g e 168 g,
respectivamente.
Acontece que, nas populações desses macacos, a fêmea faz sexo com vários
machos em sequência. Dessa forma, ganha quem produzir o maior número de
espermatozoides para tentar fecundá-las. O gorila, que nunca precisou se
preocupar com esse tipo de competição, evoluiu com testículos bem
pequenos: só 23 g.
O testículo humano fica no meio do caminho: pesa uns 34 g. Não éramos tão
promíscuos quanto os chimpanzés, mas também não fazíamos como os
gorilas. Afinal, como nossos antepassados se relacionavam?
Vilma, cheguei
O Australopithecus, gênero de hominídeo que viveu entre 4,5 milhões e 2
milhões de anos atrás, tinha um alto grau de dimorfismo – ou seja, os machos
eram bem maiores que as fêmeas. Isso indica que eles provavelmente se
organizavam como os gorilas: alfas no comando de seu harém particular.
No gênero Homo, que surgiu há 2,5 milhões de anos, essa diferença de porte
entre os sexos diminuiu. E é justamente aí que podemos ter começado a
formar casais. Em espécies monogâmicas, machos e fêmeas tendem a ser
mais parecidos.
A evolução humana aconteceu em paralelo a uma importante mudança na
paisagem africana. As savanas cresceram, enquanto a cobertura florestal
diminuiu. Nossos ancestrais (como o Homo erectus, primeira espécie 100% los a quilômetros de distância.
O que fazem mamíferos que precisam cuidar dos seus filhotes num lugar
como esse? Arranjam um contatinho. Os humanos primitivos que conseguiam
formar laços com seus parceiros sexuais tinham mais chance de sobreviver na
savana.
Mas o que isso tem a ver com a paixão, o amor e o ciúme que sentimos pelo
cônjuge? Ao que parece, tudo começou com os bebês.
Na hora do parto, a mulher libera doses cavalares de ocitocina, que estimula
as contrações para dilatar o colo do útero. Ele também diminui os níveis de
cortisol (o hormônio do estresse) e baixa nossa guarda para interações sociais,
permitindo relações de afeto. Esse hormônio é o principal responsável pelo
amor quase instantâneo que a mãe sente pelo filho.
E o pai? Quando o bebê nasce, os níveis de testosterona caem. Ele se torna
menos agressivo e tende a prestar mais atenção na prole. Os humanos são
uma das poucas espécies em que o macho tem inclinações biológicas inatas
para cuidar dos filhotes, ainda que esse instinto nem sempre dê as caras em
uma sociedade machista como a nossa.
Em algum momento da nossa evolução, esse sistema de amor parental pode
ter dado origem ao amor romântico. Você e seu namorado não usam vozinha
de bebê um com o outro à toa: a ocitocina também é liberada durante o
orgasmo e quando beijamos na boca. “Talvez eu sinta algo a mais por essa
pessoa”, é o que esse hormônio te faz pensar.
A dopamina é outra peça-chave nesse processo. A molécula ativa o circuito do
desejo, um sistema do cérebro que evoluiu para nos deixar motivados ao
menor sinal de algo que possa garantir a nossa sobrevivência e reprodução.
Com os nossos ancestrais, os níveis de dopamina subiam toda vez que eles
encontravam uma caverna (“oba, uma casa!”), um lago com peixes (“oba,
sushi!”) e, claro, um parceiro em potencial.
A dopamina ajuda a explicar por que todo começo de namoro é uma grande
euforia. Mas o cérebro não consegue ficar pilhado por muito tempo. Uma vez
que a novidade se torna rotina, os níveis de dopamina baixam. Quando isso
acontece, a paixão pode dar o próximo passo, no qual a ocitocina (mais ativa
em mulheres) e outra molécula, a vasopressina (mais ativa em homens),
cuidam para que o casal tenha mais companheirismo e chegue até as bodas de
ouro.
Só que essa não é uma tarefa fácil – é duro lutar contra os impulsos da
dopamina. O caminho mais comum que os nossos antepassados encontraram
provavelmente foi o da monogamia em série: o casal se conecta por um
tempo, divide tarefas para cuidar do bebê e depois se separa.
Analisar a evolução humana ajuda a entender por que casais se apaixonam,
por que se separam e por que os ciúmes existem. E lembre-se: as conclusões
da psicologia evolucionista são apenas parte da resposta. “A genética não é
fixa. Não é destino nem nos escraviza”, diz Varella. Como veremos adiante, o
que baliza o comportamento não é apenas o nosso DNA – mas também o
ambiente no qual estamos inseridos

A era dos haréns
A monogamia não extinguiu a poliginia no ser humano. Em alguns
grupamentos, homens mais poderosos podiam ter de duas a dez mulheres.
Mas era raro. Nômades, muitas vezes, não conseguem acumular recursos.
Quando não há mais o que caçar ou coletar, é preciso juntar as tralhas e
mudar de CEP. É duro sustentar muitas famílias nesse arranjo (ainda que
muitas sociedades caçadoras-coletoras, na verdade, alcançassem graus
complexos de organização e não fossem propriamente nômades).
As coisas mudaram 12 mil anos atrás, quando a explosão da agricultura e a
criação de animais viraram de vez o modo de vida dos humanos no Oriente
Médio. A partir daí, alguns homens conseguiram monopolizar o excedente da
produção agrícola – e usá-lo como moeda de troca para angariar soldados e
aliados.
Quem acumulou riqueza pôde também cuidar de um número maior de
esposas – e, consequentemente, deixar mais herdeiros. Comida e abrigo,
afinal, não eram problemas. É nesse momento que surgem haréns com
dezenas (até centenas) de mulheres, além da possibilidade de manter
múltiplos casamentos. “Homens poderosos permitiram a poliginia em até 80%
das culturas humanas”, escreve o neurocientista Steven Pinker, da
Universidade de Harvard, no livro Como a mente funciona.
Esse era um costume da elite, claro. A maioria dos relacionamentos ainda era
monogâmica. Mas a concentração de esposas gerava um problema
que afetava toda a sociedade: muitos homens ficavam sozinhos. O resultado
disso, quase sempre, foi a violência – a escassez de mulheres foi o motor de
inúmeros homicídios e guerras tribais.
“Líderes proibiram a poligamia quando precisaram que seus súditos
combatessem um inimigo em vez de lutarem entre si”, diz Pinker. Babilônios,
egípcios, gregos, romanos… Cada civilização criou as suas próprias regras
monogâmicas.

Mas a poligamia não deixou de existir. Até hoje, 2% da população mundial vive
em casamentos do tipo (3). 58 países permitem a prática, mais comum na
África Subsaariana (11% das pessoas são poligâmicas), um lugar com
democracias frágeis e alta desigualdade econômica. A religião também
influencia. Em alguns países, apenas muçulmanos têm direito à poligamia
uma passagem do Alcorão diz que homens podem ter até quatro esposas.
Algumas sociedades poligâmicas permitem ainda a poliandria: uma esposa e
mais de um marido. Mas esse é (e sempre foi) um arranjo extremamente raro.
Na longa história dos relacionamentos, as mulheres foram deixadas de lado na
conversa. Algo que, felizmente, está mudando.
Eu escolhi esperar
Essa história você conhece. No último século, as mulheres conquistaram
espaço no mercado de trabalho e na política. Dentro de casa, a tecnologia
encurtou o tempo gasto com as tarefas domésticas que recaem sobre elas. E
avanços na saúde pública e nos cuidados pré-natais melhoraram o bem-estar
dos bebês: a taxa de mortalidade infantil mundial, que no passado chegou a
48%, hoje é de apenas 4,3%.
professora da FGV Lorena Hakak, presidente da Sociedade de Economia da
Família e do Gênero (GeFam). Com as pílulas, dá para escolher melhor quando
(e com quem) ter filhos.
Sem bebês, sobra mais tempo para estudar. Mais que os homens, diga-se. No
Brasil, 21,3% da população feminina com 25 anos ou mais tem ensino
superior completo. Entre a população masculina, a fatia é menor: 16,8%. Nos
38 países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico), que reúne algumas das nações mais desenvolvidas do mundo, a
tendência é a mesma.
O que acontece quando a mulher consegue cuidar da prole e caçar o próprio
jantar? “Nos países em que as mulheres têm mais chance de estudar, ter sua
carreira e juntar os próprios recursos, há mais sexo casual – e a taxa de
divórcio é maior”, aponta Varella. E a grana nem precisa ser exorbitante para
que isso aconteça. O Bolsa Família, que vai prioritariamente para as mulheres,
ajudou a impulsionar o número de separações na região Nordeste.
Estamos longe do ideal, claro. No Brasil, as mulheres ainda ganham, em
média, 19,6% a menos que os homens – e trabalham, em média, 9,6 horas a
mais por semana em afazeres domésticos do que eles. Mas, em termos de
gênero, esse ainda é o momento mais igualitário que a humanidade já teve.
Especialmente nos países desenvolvidos, as mulheres têm mais autonomia
para casar tarde, cuidar dos filhos sem um marido e abandonar um
casamento ruim. E, num cenário em que o modelo padrão dos
relacionamentos é posto à prova, abre-se espaço também para discutir novos
arranjos.
As discussões mais maduras sobre a não monogamia começaram há 40 anos.
Em 1984, a americana Ryam Nearing, que vivia com dois companheiros,
fundou uma ONG para promover debates sobre poliamor. Em 1994, ela
conheceu a psicóloga Deborah Anapol e, juntas, lançaram uma revista, a
Loving More (“Amando Mais”). A ideia era se desvencilhar da aura hippie que
pairava sobre o tema e torná-lo acessível para todas as camadas da sociedade,
incluindo as mais conservadoras.
Na virada do milênio, a internet ampliou o debate. Mas a conversa ainda
rolava em uma bolha. No Brasil, Antonio Cerdeira Pilão, antropólogo da USP e
coordenador de um grupo de pesquisa sobre não monogamia, mapeou as
primeiras comunidades sobre poliamor na falecida rede social Orkut. Eram,
em sua maioria, formados por jovens adultos de classe média com curso
superior. “Era um grupo muito alheio ao perfil médio da população brasileira”,
diz o pesquisador. E ainda é. Mas o assunto, lentamente, está saindo desses
círculos e alcançando fatias mais amplas da sociedade.
Em 2012, um marco importante: o Brasil registrou a primeira união estável
entre três pessoas. Duas mulheres e um homem do Rio de Janeiro pegaram
950 km de estrada para oficializar a relação em um cartório de Tupã, interior
de São Paulo. “Foi tudo organizado pela galera do Orkut, que entrou em
contato com uma tabeliã da cidade e viu que havia a possibilidade de uma
escritura”, conta Pilão.
Foi um caso isolado (o Conselho Nacional de Justiça invalidaria a união anos
mais tarde), mas que virou assunto em todos os jornais – e ajudou o tema a
ganhar o mainstream. Talvez você se lembre que, no final de 2012, a novelaA conversa sobre não monogamia deve continuar ganhando cada vez mais
amplitude – especialmente em países mais ricos e democráticos, onde
discussões sobre liberdade sexual e igualdade de gênero estão mais
adiantadas. Mas, se dividir o parceiro não for a sua praia, tudo bem. Sempre
haverá pessoas mais e menos ciumentas, mais e menos inclinadas a um
relacionamento a dois. O que importa, no final, é encontrar um amor (e uma
dinâmica) que faça sentido para você. Na saúde e na doença. Na riqueza e na
pobreza. Na monogamia – ou fora dela.
(Superinteressante)
Fontes (1) Prevalence of Experiences With Consensual Nonmonogamous Relationships:
Findings From Two National Samples of Single Americans.; (2) Gender, sexual orientation and
type of relationship influence individual differences in jealousy: A large Brazilian sample.; (3)
Religion and Living Arrangements Around the World (Pew Research Center)
