quinta-feira, outubro 8, 2026
InícioBRASILCoincidência demais para ser coincidência, por Rogerio Pires

Coincidência demais para ser coincidência, por Rogerio Pires

Pegue o calendário de outubro e marque duas datas. A primeira é a semana do dia 21, quando o Senado pretende votar a PEC que acaba com a escala 6×1. A segunda é o domingo, 25, dia do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Quatro dias separam uma coisa da outra.

Coincidência?

Eu não acredito. E explico por quê.

A proposta reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, com transição: primeiro 42 horas, depois 40. Passou pela Câmara em 27 de maio, com 472 votos a favor e 22 contra. Depois disso, dormiu. Ficou meses parada no Senado, no meio da briga entre o Planalto e Davi Alcolumbre. No começo de setembro, a própria base do governo desistiu de votar por medo de perder no plenário.

Aí veio o primeiro turno. Flávio terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. E a pauta que estava na gaveta virou urgência nacional. Na terça, dia 6, o Senado abriu a discussão. O PT trabalha com a meta de aprovar tudo até o dia 22. Três dias antes da urna.

Somando os mandatos de Lula e Dilma, são quase 18 anos de PT no Palácio do Planalto. Teve maioria no Congresso. Teve popularidade recorde. Teve tempo de sobra. Em nenhum desses anos a sua jornada virou prioridade de verdade.

Lembrou agora.

Quero ser muito claro numa coisa. O desejo de trabalhar menos e ganhar mais um dia com a família é legítimo. Quem vive a 6×1 sabe o que é sair de casa com o filho dormindo e voltar com ele dormindo de novo. Eu respeito isso profundamente. E é justamente por respeitar que não aceito ver esse trabalhador virar cabo eleitoral.

Agora vá para o outro lado do balcão.

Pense no dono da padaria da esquina. Ele abre às cinco da manhã, tem quatro funcionários e paga cada salário com o caixa do mês. Não tem departamento jurídico, não tem margem gorda, não tem para onde correr. Se a jornada cai quatro horas por semana, a padaria continua precisando abrir no sábado. Ele vai ter que contratar mais alguém ou pagar hora extra. Se não conseguir, fecha mais cedo, demite ou repassa no preço do pão.

A CNI estima que o fim da 6×1 pode elevar os preços, em média, entre 6% e 8%. E quem paga esse aumento no fim da fila é o mesmo trabalhador que a proposta diz proteger.

Ninguém está dizendo que esse debate não deve existir. Ele deve. O que eu digo é que uma mudança na Constituição, que mexe com milhões de empregos e com o caixa de milhões de pequenos negócios, não pode ser decidida com o cronômetro da campanha correndo. Uma PEC exige dois turnos de votação e 49 votos no Senado. Exige conversa sobre transição, sobre os setores que funcionam todos os dias da semana, sobre o impacto em quem gera emprego no interior e na periferia.

Fazer isso na semana da eleição transforma uma questão de Estado em peça de propaganda. Se passar, vira palanque. Se cair, vira acusação contra quem votou contra. Nos dois casos, o trabalhador vira figurante de uma disputa que não é dele.

Uma proposta boa continua boa no dia 26 de outubro. Continua boa em novembro, em dezembro, no ano que vem.

Se ela só serve antes do dia 25, talvez o alvo não seja o seu descanso.

Talvez seja o seu voto.

Por isso faço a você a mesma pergunta que fiz nas redes: essa votação deveria ficar para depois da eleição? Sim ou não?

Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas