Muitas vezes você é o seu único empregado, a pessoa trabalha junto com a família. E é, por isso, que eles têm que ter proteções especiais. Claro que eu sou a favor de uma escala menor de trabalho, isso é inexorável, vai acontecer de qualquer jeito, no mundo todo vai, e é bom que aconteça. Agora, claro que essas pessoas, os pequenos empreendedores, especialmente os 10 milhões de empreendedores, que tem até 8 funcionários têm que ter uma proteção. –Márcio França
Marcio França é um dos nomes mais longevos e articulados da política paulista. Advogado de formação, sua trajetória pública começou em São Vicente, no litoral paulista, onde construiu sua base eleitoral. Entre 1997 e 2004, França exerceu dois mandatos como prefeito da cidade, período em que ganhou projeção regional e consolidou sua influência no PSB.
Em 2018, assumiu o governo paulista após a renúncia de Alckmin, que deixou o cargo para concorrer à Presidência. Apesar da curta duração no comando do governo, o período foi intenso. Na disputa eleitoral daquele ano, ele tentou a reeleição em uma campanha acirrada, em que foi derrotado por João Doria, episódio que o levou a uma reaproximação com a esquerda.
Hoje, Marcio França atua como um dos braços estratégicos da gestão federal em São Paulo, sendo figura central na costura de alianças e no fortalecimento da presença do governo nas esferas municipais. Ele chegou a ser cotado para disputar o governo do Estado na chapa de Fernando Haddad (PT), como seu vice, mas afirmou que a decisão ainda não foi tomada.
‘PCC e CV são criminosos comuns’
“Aqui em São Paulo nós tínhamos o PCC. Até um certo tempo, depois da chegada do governador Tarcísio [de Freitas], ele conseguiu trazer junto também o Comando Vermelho, que acabou invadindo aqui –junto com o PCC. E esses grupos não têm a intenção de derrubar os governos ou de mexer com a coisa política do governo. Eles são criminosos comuns que se organizaram e que pretendem fazer dinheiro com isso.
E, aliás, diga-se de passagem que boa parte da sustentação desses grupos vem através do narcotráfico. E a produção de todas essas drogas não é feita no Brasil. O Brasil é apenas um intermediário dessa passagem de toda essa droga, que, via de regra, é consumida nos EUA, que é o principal consumidor de drogas no mundo.
Então, os americanos fazem isso um pouco para poder demonstrar poder pelo mundo todo e, naturalmente, o Trump fazendo para poder demonstrar algum gesto para o coitado do Flávio [Bolsonaro], que teve que ficar ali atrás naquela cena meio ridícula, pedindo proteção aos americanos.”
‘Tenho dúvida se Flávio fica ao final da campanha’
“Eu tenho muita dúvida se o Flávio fica até o final [da campanha à Presidência]. Quando os filmes do Volcaro forem à tona vai ser difícil a pessoa conseguir manter a candidatura do Flávio. Mas essa medida do governo [dos EUA] vem exatamente depois da visita de Flávio Bolsonaro a Trump. Para o eleitor-geral, parece que ele teria alguma força junto ao governo americano.
Tanto que a nota do governo, agora, fala justamente sobre isso, sobre traidores que tentam confundir conceitos, que integrantes da família Bolsonaro viajam mais uma vez aos EUA, defendendo intervenção estrangeira aqui no Brasil.
Nós estamos vivendo uma época de tempos difíceis, bicudos, né? Quer dizer, quem que vai entender o americano votando no Trump? Agora vamos ter eleição americana daqui a pouco, o Trump vai ser derrotado, como aconteceu em outros lugares que fizeram retrocessos. E é uma pena, claro, perder tempo com assuntos que, sinceramente Tem muito pouco a ver.
O Trump queria anexar o México, queria anexar a Groenlândia, queria, enfim, quase chega a ser cômico, se não fosse triste. Mas é assim, é um grupo de pessoas que ascendeu aos cargos. A direita clássica, que é a direita liberal, eram pessoas centradas, que tinham posições, eram posições ideológicas do ponto de vista econômico. O Trump não tem essas posições ideológicas, como também não tem o Bolsonaro.”
Por que o Senado e não vice em SP
“O presidente Lula me pediu para não ser candidato, para apoiar o Haddad e ser candidato ao Senado, foi o que eu fiz. Nas duas últimas eleições, aqui em São Paulo, eu tive juntos mais de 20 milhões de votos. Não tem uma única cidade em São Paulo que eu não conheça, ou que eu não saiba quem é o prefeito, ou que eu não tenha relação com os deputados.
Eu sou nascido aqui em São Vicente, na cidade mais antiga de São Paulo. Eu sou paulista da gema. Então o presidente Lula me disse que precisa que Haddad seja candidato de novo. Eu disse: ‘Presidente, a decisão é sua. Nós faremos o que for importante para que o senhor se mantenha com a chapa Lula e Alckmin na Presidência para garantir a democracia.
Agora, é uma decisão que o Haddad tem que tomar [sobre quem será seu vice na candidatura ao governo, entre França, Simone Tebet e Marina Silva]. Tarcísio já escolheu, do outro lado, quatro homens, entre os candidatos ao Senado, a vice, ao governador e outro ao Senado. Seria muito bom termos uma mulher vice-governadora e uma mulher senadora e ficaríamos com uma chapa.
É que São Paulo tem um dado perigoso. Todos têm que estar sempre atentos. Na eleição retrasada, quando o Haddad foi candidato a presidente da República, nosso campo perdeu aqui em São Paulo por 7 milhões e meio de votos. Na eleição passada, já com o Alckmin e nós juntos, perdemos por 2 milhões e meio.
Esses milhões fizeram toda a diferença que provocou a eleição do Lula. Então, o único Estado do Brasil que se movimentou com tanto voto de diferença foi São Paulo, 5 milhões de votos. E, evidente, há um risco de nós não termos um segundo turno, porque é uma eleição onde aparentemente só aparecem dois candidatos com mais de 5% dos votos. Aliás, nem aparece um terceiro candidato, o que significa dizer que nós podemos ter um turno só.”
PEC 6×1 e seu efeito ‘nefasto’
“Para você ter uma noção, 25 milhões de empresas no Brasil são MEIs ou Simples. Isso significa 99% de todos os CNPJs do Brasil. Só aqui em São Paulo esse grupo forma quase 50% de tudo que serviu no Brasil inteiro, essas pessoas realmente elas não são mais os antigos patrões porque são empregados deles próprios, é como se fosse duas pessoas numa só.
Muitas vezes você é o seu único empregado, a pessoa trabalha junto com a família. E é por isso que eles têm que ter proteções especiais. Claro que eu sou a favor de uma escala menor de trabalho, isso é inexorável, vai acontecer de qualquer jeito, no mundo todo vai, e é bom que aconteça. Agora, claro, que essas pessoas, os pequenos empreendedores, especialmente os 10 milhões de empreendedores, que tem até 8 funcionários têm que ter uma proteção.
O governo tem que criar mecanismos para protegê-los, para que eles não sofram um efeito nefasto de ter que voltar para a informalidade. E qual é essa proteção, por exemplo? Ampliar o teto do MEI, criar o teto do Simples, criar a escada que o presidente Lula concorda em criar, onde a pessoa, se você faturou até R$ 80 mil, você é MEI. Mas se você faturou num ano R$ 110, ao invés de você ser excluído do MEI, você paga só diferença dos 30 mil na faixa de cima de 4%.
O que a gente faz com o imposto de renda? A pessoa não seria excluída, ela ficaria durante um ano, dois, para testar essa passagem. Porque o objetivo do governo na reforma tributária é tentar fazer com que as empresas cresçam. A lógica de você trabalhar com empresas que têm essas denominações, microempresa, micro, pequena empresa, a empresa pode ser micro, mas o empreendedor é sempre gigante.
Uma dona de casa que faz bolo de uma periferia e sustenta duas crianças pagando escola, ela é uma gigante empreendedora. Ela pode ter uma microempresa, mas ela é uma gigante empreendedora. Encontrar um horário para fazer e sobreviver. Então é claro que essa senhora tem que ter ajuda do governo e se preciso for, tem que ter subsídio mesmo, como tem na agricultura.”
Fonte: Band
