Operação do Exército monitorou políticos e militares da reserva, oficial fez backup “trapalhão” em repósitório público e a coisa explodiu

0
78

Relatórios do Centro de Comunicação do Exército obtidos com exclusividade pela Revista Sociedade Militar mostram o monitoramento de associações de praças, militares da reserva e deputados que contestavam a reestruturação das carreiras de 2019.

O Exército Brasileiro monitorou nas redes sociais o comportamento de deputados federais, jornalistas, associações de praças e militares da reserva durante a tramitação do Projeto de Lei 1645/2019, que reestruturou as carreiras das Forças Armadas. Os relatórios do Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx), obtidos com exclusividade pela Revista Sociedade Militar, mostram que a força usava o aparato militar para influenciar em um processo legislativo e que o acompanhamento serviu de base para estratégias destinadas a enfrentar a resistência de militares de baixa patente.

Do outro lado estava um contingente expressivo de militares da reserva, praças e pensionistas. Para essas associações, a proposta do Ministério da Defesa concentrava os maiores ganhos nos oficiais de altas patentes, da ativa e da reserva, em detrimento de soldados, cabos, sargentos e suboficiais. O projeto foi aprovado e sancionado por Jair Bolsonaro em dezembro de 2019 como a Lei 13.954.

A Revista Sociedade Militar foi o único veículo a ter acesso à íntegra dos relatórios, publicados em 2021. Documentos que traziam ao final a anotação “Para conhecimento” e o pedido “Favor não difundir” ficaram ao alcance de qualquer pessoa. O material chegou à redação por meio de dica de uma fonte do alto escalão, cuja identidade a revista jamais revelou, proteção assegurada pelo artigo 5º, inciso XIV, da Constituição.

A informação inicial foi de que um oficial ligado ao monitoramento e análise das ações para tentar modificar o então PL-1645 de 2019 havia feito backup em um repositório público e aberto. A reportagem fez uma varredura em sites como scribd, slideshare e docero, acabou encontrando vários relatórios de monitoramento nesse último.

No site docero, que atualmente funciona em outro formato, a reportagem encontrou ainda outros documentos da força terrestre. Ao que tudo indica, o site era um dos preferidos do pessoal do CCOMSEX para armazenar documentos.

Capturas de tela do site docero.com.br em agosto de 2021

Após a publicação na RSM, a coisa explodiu nas redes, com os parlamentares se manifestando como indignados com o ocorrido, o Correio Braziliense questionou o CCOMSEx. A assessoria negou a autenticidade do material divulgado pela revista, mas enviou ao jornal 124 páginas de relatórios apresentados como oficiais, cobrindo de 14 de agosto a 20 de novembro de 2019. Os textos eram os mesmos publicados pela RSM, porém com tarjas pretas sobre nomes de parlamentares, partidos, veículos de imprensa, jornalistas e blogueiros.

O alvo: o temor da influência das associações de praças e de militares da Marinha do Brasil

Os relatórios identificam com clareza de onde vinha a oposição. O de número 014, de 4 de outubro de 2019, registra que as menções negativas ao projeto “sustentam a narrativa das Associações de Praças e Militares da Reserva”, cujo discurso se baseava nas divergências entre oficiais e praças. Naquela semana, 774 das 863 publicações analisadas foram classificadas como negativas e apenas 4 como positivas.

Já em 21 de agosto de 2019, o relatório 004 concluía que os comentários contrários ao PL 1645 vinham de perfis ligados às praças da Marinha do Brasil. O documento recomendava “maior atenção ao poder de influência futuro” dos vídeos atribuídos a perfis ligados à Revista Sociedade Militar e a seus apoiadores, que repercutiam a insatisfação do grupo.

Nos relatórios de outubro, o site e o canal de YouTube da revista passam a ser descritos como “ponto de influência negativa no PL”. O relatório 015, de 8 de outubro, classifica os perfis ligados à revista e às associações de praças e militares da reserva como a “ponte de contato” com os parlamentares do PSOL, partido que havia decidido apoiar a causa dessas entidades.

Militares da reserva com nome, foto e número de visualizações

O monitoramento desceu ao nível individual. O relatório 004 reproduz a foto e o link do perfil profissional de um advogado do Distrito Federal que atuava junto a uma associação de praças. O mesmo documento registra a reunião de representantes da entidade com um deputado federal, divulgada em vídeo pela Revista Sociedade Militar.

O relatório 015 acompanha vídeos de militares da reserva da Marinha contra o projeto, incluindo um em que integrantes de uma associação aparecem ao lado de um senador. Outro canal, que publicava cálculos comparando a remuneração de oficiais e praças, foi acompanhado ao longo de duas semanas, com registro de que o último vídeo alcançou 3,2 mil visualizações.

A metodologia formalizava esse olhar. Entre os sete grupos monitorados estava o “Grupo Associações de Militares”, definido como perfil de entidades agregadoras de militares da reserva. Os demais eram Cidadãos, Político, Mídia, Forças Armadas, Forças Auxiliares e Entidades Religiosas.

Monitoramento de militares nas redes sociais no PL1645 de 2019

Freixo, Glauber Braga e Talíria Petrone no radar

Os parlamentares que encamparam a pauta das praças também foram acompanhados. O relatório 015 aponta Marcelo Freixo, com 1,15 milhão de seguidores, Talíria Petrone e Glauber Braga, todos então no PSOL do Rio de Janeiro, como os maiores influenciadores do período. O texto afirma que Freixo “é um forte influenciador de massas radicais no Twitter”.

Glauber Braga aparece por ter se posicionado contra o relator na leitura do parecer, em 2 de outubro, defendendo que o projeto fosse votado em plenário. O documento também mede a repercussão de uma nota do colunista Lauro Jardim sobre as assinaturas reunidas por Freixo para levar o texto ao plenário: 6.035 interações no Facebook.

O relatório 014 analisou ainda as cinco últimas postagens do relator, deputado Vinícius Carvalho (Republicanos-SP), para concluir que ele mantinha prestígio entre os seguidores, contestando uma matéria da Revista Sociedade Militar. Segundo o Correio Braziliense, outros 19 deputados federais são citados.

A estratégia: influenciadores, palestras e esvaziamento do discurso

Os trechos não tarjados da versão oficial obtida pelo Correio Braziliense mostram como a Força planejava reagir. No relatório de 1º a 4 de novembro de 2019, os analistas avaliam que disputar a narrativa apenas com perfis institucionais seria desgastante e ineficiente, e defendem a atuação de influenciadores, cujo alcance seria superior ao dos perfis oficiais.

O mesmo documento afirma que, “no cenário político, é preciso esvaziar o discurso” de um ator cujo nome foi tarjado, e dar visibilidade aos políticos favoráveis ao PL 1645. O relatório de 13 a 20 de novembro, com o projeto já no Senado, pede influenciadores com narrativa favorável para evitar a repetição do que ocorreu na Câmara, quando a oposição se apoiou na pauta das associações de praças.

Para o público interno, os textos propõem coordenar entre as três Forças e um órgão tarjado palestras para militares da ativa e da reserva, além de uma rotina de postagens informativas durante as sessões do Senado. No relatório de 4 a 6 de novembro, os analistas preveem que a oposição voltaria a se unir às associações, reforçando a tese de que o projeto era desigual entre oficiais e praças.

Respostas oficiais negavam qualquer monitoramento

Em 2020, a Revista Sociedade Militar perguntou ao Exército, pela Lei de Acesso à Informação, sobre monitoramento em redes sociais. A Força respondeu que usava apenas ferramenta de clipping para a Resenha Diária e geria suas mídias sociais “sem efetuar monitoramento”. Em outro pedido, o Serviço de Informações ao Cidadão do Exército afirmou que a Força “não se dedica a monitorar redes sociais”.

Uma monografia da Escola de Formação Complementar do Exército, assinada por um coronel, já citava o uso das ferramentas VTracker e MLabs pelo CCOMSEx. Ao Correio Braziliense, o Exército informou que o acompanhamento do PL 1645 usou o V-tracker, a busca avançada do Twitter e o Google Alerts, ferramentas de fontes abertas e, segundo a Força, sem grau de sigilo.

Em 22 de agosto de 2021, a revista protocolou novo pedido, solicitando a lista de ferramentas contratadas, os relatórios sobre o PL 1645 e a confirmação de autenticidade do relatório 023. O prazo vencia em 13 de setembro, e o Exército pediu prorrogação. O Poder360 e outros veículos também questionaram a Força.

Em audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara, em 2021, o então ministro da Defesa, general Braga Netto, foi questionado por Glauber Braga e negou: “Não existe monitoramento de parlamentares, não existe”. O Correio Braziliense apontou que o conteúdo dos relatórios contradizia a declaração.

Para Freixo, interferência entre os Poderes

Em 23 de agosto de 2021, Marcelo Freixo, já no PSB, apresentou o Requerimento de Informação 1058/2021 ao Ministério da Defesa. Ele perguntou quem contratou o acompanhamento, qual o valor pago, a modalidade e o processo de contratação, quem ordenou o relatório nº 16, de 10 de outubro de 2019, e quem foram os responsáveis por sua elaboração.

Para Freixo, à época, a intromissão da Força no processo legislativo poderia ter representado interferência entre os Poderes. No requerimento, ele sustenta que os fatos podem significar quebra da harmonia e da independência entre Executivo e Legislativo, princípio do artigo 2º da Constituição, e afronta à inviolabilidade de opiniões, palavras e votos dos parlamentares, prevista no artigo 53. Até a reportagem do Correio, não havia resposta.

A reação entre os militares da reserva

Militares ouvidos pela Revista Sociedade Militar à época questionaram o uso de uma estrutura gigantesca, construída para uso na guerra, para influir em um processo legislativo. Um deles resumiu que se tratava de uma estrutura “descomunal pra enfrentar dois ou três deputados e 15 sargentos”, e que isso estaria errado fosse o parlamentar de direita ou de esquerda, que a força não poderia influir para aprovar um projeto de interesse da cúpula armada.

A Lei 13.954/2019 acabou aprovada pela Câmara dos Deputados e Senado, estando em vigor e – seis anos depois desses eventos – continua apontada por associações de praças e pensionistas como desigual em relação aos oficiais de altas patentes. Os relatórios do CCOMSEx registram e são prova que, enquanto as respostas oficiais negavam monitoramento, a Força contava curtidas, analisava comentários de sargentos da reserva, classificava deputados e traçava estratégias de “combate” para aprovar o projeto.

fonte Sociedade Militar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui