terça-feira, maio 28, 2024
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Presidente do BC irrita Fazenda em fim de mandato e reforça perfil de sucessor alinhado ao governo

Declarações do chefe do Banco Central, incluindo sobre o impacto de contas públicas mais frouxas e o abandono da orientação de política monetária, azedaram relações com o Ministério da Fazenda, até então seu maior parceiro no Poder Executivo. Três autoridades do ministério, que pediram anonimato para discutir opiniões pessoais, disseram ter interpretado os recentes comentários do presidente do BC, Roberto Campos Neto, como uma medida deliberada para adotar um tom mais severo com o governo de esquerda que se prepara para substituí-lo no final do ano.

As tensões crescentes podem antecipar o ruído em torno dessa transição — a primeira sob lei que concede autonomia operacional ao BC — reforçando expectativas de que, para o lugar do atual chefe da autoridade monetária, será escolhido um nome de extrema confiança e trânsito com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe econômica.

Quando Campos Neto foi criticado por Lula no início do ano passado por taxas de juros elevadas, foi o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quem intermediou reuniões e baixou a temperatura.

No entanto, a sinalização mais recente de Campos Neto sobre eventual corte de juros menos intenso e os ataques à disciplina fiscal do Brasil durante uma maratona de eventos públicos em Washington na semana passada pegaram o Ministério da Fazenda de surpresa, potencialmente queimando pontes ali.

Uma fonte do ministério disse que a postura de Campos Neto, que foi indicado pelo antecessor de direita de Lula, Jair Bolsonaro, tornou-se “política”. Outro chamou-a de “não habitual”.

O BC e o Ministério da Fazenda não responderam a pedidos de comentários.

Em um evento com investidores na quarta-feira passada, aberto à transmissão pública apenas algumas horas antes de começar, Campos Neto indicou pela primeira vez a possibilidade de um corte menor de juros enquanto traçou conjecturas para o futuro tendo como pano de fundo a maior incerteza global. Ele citou tanto a inflação dos Estados Unidos acima das expectativas quanto preocupações com o governo afrouxando sua meta fiscal para 2025.

Uma fonte do Ministério da Fazenda reclamou que ponderações semelhantes sobre taxas de juros nos EUA permanecerem altas por mais tempo abalaram os mercados em setembro e outubro sem uma reação tão dramática de Campos Neto que, à época, optou por ressaltar que a relação com a política monetária brasileira não era automática, sendo necessário avaliar os canais de transmissão para inflação, em particular o câmbio.

Outra fonte do ministério afirmou que as declarações foram feitas no calor do momento, sem que houvesse visibilidade sobre o quão permanentes seriam as consequências do cenário para a moeda brasileira.

Passados alguns dias, o real recuperou parte de suas perdas neste mês, mas na segunda-feira Campos Neto ressaltou que, diante das incertezas, a autoridade monetária ficava impedida de fornecer uma orientação futura para a política monetária.

Em março, o BC havia encurtado esse “guidance” ao sinalizar que previa mais um corte de 0,5 ponto percentual na sua próxima reunião de política monetária, e não mais para os próximos encontros, no plural.

A desconfiança já vinha crescendo na Fazenda, disseram as fontes, desde que Campos Neto começou a defender abertamente no início deste ano que parlamentares aprovassem uma emenda constitucional concedendo autonomia financeira ao BC.

 

Reuters

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